sábado, 25 de junho de 2011

Fontes para o Ensino de História.


Pensar o ensino de história para a educação básica implica em rever as histórias que eram ensinadas até os dias de hoje. Mediante a isso inicio minha reflexão com uma citação de Sérgio Buarque de Holanda:


“Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa dos figurantes mudos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história.” (HOLANDA apud BITTENCOURT, 2008, p.185)



Frente a essa posição então de que a história deve ser vista também com o olhar das multidões e não apenas dos grandes nomes que se perpetuaram no tempo, quero pensar que a História do Brasil está ligada ao processo de formação de uma identidade nacional, identidade essa que até então sempre foi tratada como homogênea e em sua constituição sem participação de culturas ou povos diferentes, ou seja, sem tratar da diversidade cultural que constitui o povo brasileiro (BITTENCOURT).
Eis então um desafio ao professor, o ensino de história. Achar uma solução para tal situação não é tão fácil, e nem pretendo aqui propor uma receita de bolo, mas sim pensar sobre as formas de se ensinar história, em especial o ensino fundamental. Para isso então proponho a utilização de um tipo de fonte onde seja possível a percepção do aluno sobre os elementos que deve-se perceber.
A utilização de um tipo de fonte primeiramente deve ser pensada com cuidado para cada série específica do ensino fundamental – assim como no ensino médio – para não inviabilizar a atividade, sendo assim não se deve utilizar um filme que apresenta uma linguagem difícil para alunos do 6º ano por exemplo (NAPOLITANO). Com o mesmo cuidado deve-se escolher os tipos de fontes e seu conteúdo, pensando em sua acessibilidade, os objetivos que se pretende atingir com aquele tipo de fonte etc.
Pois bem, proponho então a utilização de uma fonte documental para o 7º ano do ensino fundamental, o documento seria utilizado para se compreender um dos olhares sobre a sociedade escravocrata no Brasil durante o século XIX. Para tal reflexão seria utilizado a transcrição de uma carta escrita por um ex-escravo em 1880, no qual há o relato de sua trajetória no Brasil desde que seu pai o vendera como escravo. O agente em questão é Luiz Gama, poeta negro, livre que é vendido pelo pai aos dez anos, passa por vários senhores até que é alfabetizado passando a lutar pela sua liberdade roubada e pela liberdade de outros cativos.
A reflexão que emerge aqui então é como um filho de escrava liberta, portanto livre, assume uma condição de escravo e principalmente como este enxerga a sociedade em que está imerso. Através desse olhar expresso na carta escrita por Gama percebemos os elementos fundamentais da sociedade brasileira do século XIX, principalmente quando há a narrativa dos diálogos entre Luiz Gama e seu senhor que se nega a dar a liberdade ao escravo.

Anexo

São Paulo, 25 de julho de 1880

Meu caro Lúcio

Recebi o teu cartão com a data de 28 do pretérito.
Não me posso negar ao teu pedido, porque antes quero ser acoimado de ridículo, em razão de referir verdades pueris que me dizem respeito, do que vaidoso e fátuo, pelas ocultar, de envergonhado: aí tens os apontamentos que me pedes e que sempre eu os trouxe de memória.
Nasci na cidade de S. Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguezia de Sant'Ana, a 21 de junho de 1830, por as 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio — era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.
Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma "casa de dar fortuna", em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses "amotinados" fossem mandados por fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores.
Nada mais pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo, e estando em comissão do governo, na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.
Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país, constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo; e pertencia a uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico; e, nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e, reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luiz Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".
Remetido para o Rio de Janeiro, nesse mesmo navio, dias depois, que partiu carregado de escravos, fui, com muitos outros, para a casa de um cerieiro português, de nome Vieira, dono de uma loja de velas, à rua da Candelária, canto da do Sabão. Era um negociante de estatura baixa, circunspeto e enérgico, que recebia escravos da Bahia, à comissão. Tinha um filho aperaltado, que estudava em colégio; e creio que três filhas já crescidas, muito bondosas, muito meigas e muito compassivas, principal-mente a mais velha. A senhora Vieira era uma perfeita matrona: exemplo de candura e piedade. Tinha eu 10 anos. Ela e as filhas afeiçoaram-se de mim imediatamente. Eram cinco horas da tarde quando entrei em sua casa. Mandaram lavar-me; vestiram-me uma camisa e uma saia da filha mais nova, deram-me de cear e mandaram-me dormir com uma mulata de nome Felícia, que era mucama da casa.
Sempre que me lembro desta boa senhora e de suas filhas, vêm-me as lágrimas aos olhos, porque tenho saudades do amor e dos cuidados com que me afagaram por alguns dias.
Dali saí derramando copioso pranto, e também todas elas, sentidas de me verem partir.Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires. Nesta casa, em dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antônio Pereira Cardoso, o mesmo que, há 8 ou 10 anos, sendo fazendeiro no município de Lorena, nesta Província, no ato de o prenderem por ter morto alguns escravos a fome, em cárcere privado, e já com idade maior de 60 a 70 anos, suicidou-se com um tiro de pistola, cuja bala atravessou-lhe o crânio.
Este alferes Antônio Pereira Cardoso comprou-me em um lote de cento e tantos escravos; e trouxe-nos a todos, pois era este o seu negócio, para vender nesta Província.
Como já disse, tinha eu apenas 10 anos; e, a pé, fiz toda viagem de Santos até Campinas.
Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e, por todos repelido, como se repelem cousas ruins, pelo simples fato de ser eu "baiano".
Valeu-me a pecha!
O último recusante foi o venerando e simpático ancião Francisco Egidio de Souza Aranha, pai do exmo. Conde de Três Rios, meu respeitável amigo.
Este, depois de haver-me escolhido, afagando-me disse: "— Hás de ser um bom pajem para os meus meninos; dize-me: onde nasceste?
— Na Bahia, respondi eu. — Baiano? — exclamou admirado o excelente velho. — Nem de graça o quero. Já não foi por bom que o venderam tão pequeno". Repelido como "refugo", com outro escravo da Bahia, de nome José, sapateiro, voltei para a casa do sr. Cardoso, nesta cidade, à rua do Comércio nº 2, sobrado, perto da igreja da Misericórdia.
Aí aprendi a copeiro, a sapateiro, a lavar e a engomar roupa e a costurar.
Em 1847, contava eu 17 anos, quando para a casa do sr. Cardoso, veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, tendo deixado a cidade de Campinas, onde morava, o menino Antônio Rodrigues do Prado Júnior, hoje doutor em direito, ex-magistrado de elevados méritos, e residente em Mogi-Guassu, onde é fazendeiro.
Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras.
Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma cousa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antônio Pereira Cardoso, que aliás votava-me a maior estima, e fui assentar praça. Servi até 1854, seis anos; cheguei a cabo de esquadra graduado, e tive baixa de serviço, depois de responder a conselho, por ato de suposta insubordinação, quando tinha-me limitado a ameaçar um oficial insolente, que me havia insultado e que soube conter-se.
Estive, então, preso 39 dias, de 1º de julho a 9 de agosto. Passava os dias lendo e às noites, sofria de insônias; e, de contínuo, tinha diante dos olhos a imagem de minha querida mãe. Uma noite, eram mais de duas horas, eu dormitava; e, em sonho vi que a levavam presa. Pareceu-me ouvi-la distintamente que chamava por mim. Dei um grito, espavorido saltei da tarimba; os companheiros alvorotaram-se; corri à grade, enfiei a cabeça pelo xadrez. Era solitário e silencioso e longo e lôbrego o corredor da prisão, mal alumiado pela luz amarelenta de enfumarada lanterna.
Voltei para a minha tarimba, narrei a ocorrência aos curiosos colegas; eles narraram-me também fatos semelhantes; eu caí em nostalgia, chorei e dormi.
Durante o meu tempo de praça, nas horas vagas, fiz-me copista; escrevia para o escritório do escrivão major Benedito Antônio Coelho Neto, que tornou-se meu amigo; e que hoje, pelo seu merecimento, desempenha o cargo de oficial-maior da Secretaria do Governo; e, como amanuense, no gabinete do exmo. sr. conselheiro Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, que aqui exerceu, por muitos anos, com aplausos e admiração do público em geral, altos cargos na administração, polícia e judicatura, e que é catedrático da Faculdade de Direito, fui eu seu ordenança; por meu caráter, por minha atividade e por meu comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho.
Em 1856, depois de haver servido como escrivão perante diversas autoridades policiais, fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que "por turbulento e sedicioso" fui demitido a "bem do serviço público", pelos conservadores, que então haviam subido ao poder. A portaria de demissão foi lavrada pelo dr. Antônio Manuel dos Reis, meu particular amigo, então secretário de polícia, e assinada pelo exmo. dr. Vicente Ferreira da Silva Bueno, que, por este e outros atos semelhantes, foi nomeado desembargador da relação da Corte.
A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas idéias; e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os Reis.
Desde que fiz-me soldado, comecei a ser homem; porque até os 10 anos fui criança; dos 10 aos 18, fui soldado. Fiz versos; escrevi para muitos jornais; colaborei em outros literários e políticos, e redigi alguns.
Agora chego ao período em que, meu caro Lúcio, nos encontramos no "Ipiranga", à rua do Carmo, tu, como tipógrafo, poeta, tradutor e folhetinista principiante; eu, como simples aprendiz-compositor, de onde saí para o foro e para a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime.
Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que me estimas deveras.

Teu Luiz.


Acredito então que a utilização de tais fontes em sala de aula, e no caso fontes produzidas com olhares das multidões em contraponto ao livro didático ou material, faz emergir questões sobre a época retratada e principalmente a postura crítica, despertando assim o interesse do aluno.
É mediante a utilização desse documento que os alunos poderão perceber se questionar sobre a identidade da sociedade brasileira do século XIX, quais elementos a constituem e quais os olhares tendem a hegemonia nesse período. Aliado ao documento o aluno poderá analisar também as obras poéticas de Luiz Gama.


Referências:

BITTENCOURT, Circe. Identidade Nacional e ensino de história no Brasil. IN KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2008

MARTINS, Heitor. Luís Gama e a Consciência Negra na Literatura Brasileira. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n17_p87.pdf (acesso em 24/06/11)

MATTOS, Hebe Maria. A Face Negra da Abolição. In: Revista Nossa História. Maio de 2005.

Rodrigo P. L. Domiciano

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Receita para um bom Historiador






Ingredientes:

1 Recorte na História
2Kg de fundamentação teórica
2,5 kg de paixão pelo tema
1/2 copo (tipo americano) de tempo
1 ambiente tranquilo
2 pacotes de fontes
1 caderno com muitas folhas em branco
Orientação ( a gosto)
Financiamento de Pesquisa
2 doses de discussões
5 kg de crítica
10 kg de leituras

Modo de Preparo:

Em uma tigela adicione o Recorte na História junto com a paixão pelo tema, mexa bem. Deixe descansar em temperatura ambiente por duas horas, adicione aos poucos Tempo, Fontes e não se esqueça do bom e velho Caderno em Branco.

Em uma panela leve a mistura ao fogo baixo até que a mistura atinja consistencia. Retire do fogo, espere esfriar e despeje em uma forma untada com Orientação e separe.

A parte misture Crítica, Leitura e discussões, depois despeje sobre a massa e levve ao forno.

Após assado, polvilhe com Financiamento de Pesquisa a vontade.


Anna Lívia Gomes, Marcus Oliveira, Rodrigo Peres L. Domiciano, Keyller Rodrigues

quinta-feira, 23 de junho de 2011

RECEITA: O BOM HISTORIADOR




Ingredientes:

·  Um pacote com o máximo de livros disponíveis;
·  Uma pessoa comum;
·  1 Kg de aptidão;
·  5 Kg de interesse;
·  Diversas porções de professores universitários;
·  500g de boas amizades;
·  Dois cadernos com, no mínimo, 500 folhas cada;
·  Disposição à vontade;
·  Paciência; (opcional)

A receita deve ser feita em ambiente universitário de alta qualidade para um melhor aproveitamento do ingrediente principal, a pessoa.

Modo de Preparo:

 - Colocar a pessoa comum no citado ambiente e ficar atento para os recheios, são eles que irão dar a consistência esperada.
- Preencher os espaços vazios com aptidão e interesse; ressalta-se que toda pessoa vem com essas características de fábrica, porém, se julgar necessário, a quantidade pode ser aumentada.
- Introduzir as boas amizades para que esta pessoa possa chegar ao ponto e somente depois acrescentar as porções de professores;
- É necessário estar com os cadernos sempre à disposição, eles serão de extrema importância para anotar as recomendações de leitura.
- O pacote de livros é extenso então, julga-se salutar considerar o ingrediente opcional (paciência), pois, sem ela, a pessoa poderá não chegar ao ponto e sua receita não funcionara. Ressalva-se que, em raríssimos casos, sem a paciência, chega-se a um ótimo resultado, entretanto a pessoa ficará amarga e os amigos acrescentados serão desperdiçados.
 - Deixe assar por no mínimo quatro anos e seu historiador estará pronto! Aproveite.

Os caminhos percorridos àquele que deseja se tornar um bom historiador é marcado por grandes desafios e obstáculos. Estes empecilhos são dispostos nesta trilha a fim de atingirem todo o potencial que o candidato é capaz alcançar e estão presentes em características peculiares como a curiosidade, o gosto pela leitura, a dedicação, persistência, criatividade, inspiração, paciência e principalmente gosto e amor pelo ofício.
Acreditamos que o ato de pesquisa é o motor que propulsiona a alegria do saber. Todo conhecimento é muito melhor aproveitado quando o receptor é o agente da pesquisa; ser historiador é privilegiar essa característica em todos os momentos da carreira.
As curiosidades pelos fatos, que estão presentes em nossas vidas, nos fazem buscar a sua origem e nesta caminhada nos deparamos com diversos outros acontecimentos que nos propulsionam ao desejo do conhecimento infinito. Neste sentido seria impossível pensar em um agente do estudo histórico, sem pensar em uma pessoa ambiciosa pelo conhecimento e explicação de fatos.
Pensar que o exercício da pesquisa é uma tarefa fácil é titubear na grande quantidade de fontes existentes sem um critério acadêmico de análise ocorrendo, assim, em possíveis erros que podem ser refletidos em irreversíveis prejuízos, uma vez que estamos lhe dando com a criação e/ou sustentação de teorias e análises de fatos vividos.
A interpretação, algo tão particular e aceitável no mundo acadêmico, é uma artifício cuidadosamente utilizado pelo historiador que encara uma afirmação como algo questionável, levando em consideração todos os fatores históricos que a fizeram ser proferida. Assim, a pesquisa se torna um verdadeiro labirinto com diversos outros caminhos onde nem sempre levarão a um mesmo destino.
Assim, o bom historiador deve sempre estar atento aos fatores elencados acima para se respaldar em sua pesquisa tendo a ética e o amor pela verdade como motores propulsores que o ajudarão a atingir, com maior perfeccionismo, seus estudos dando suporte para que se de início a outros Afinal, o desejo pelo saber e o gosto pela pesquisa é o objetivo de todo historiador.

Gabriel Costa
Giovanni Maciel
José Hailton Quaresma

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Reencontrando a história


Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” .Marc Bloch

As questões que guiam nossas reflexões sobre as diferentes definições metodológicas que a historiografia vem conhecendo no seu contínuo processo de renovação crítica, devem desde já conter um fundamento que respeita uma característica marcante dos estudos históricos atuais, a necessidade do historiador de problematizar suas fontes e subtrair das mesmas as diversas possibilidades que são conferidas por tal ato.

Mesmo imbuída de uma capacidade reflexiva apurada a atuação do historiador é exposta cada vez mais a um universo de incertezas que de certa forma vem contribuindo profundamente no processo de renovação metodológica da historiografia.

Mesmo assim, a atuação do historiador em seu ofício carrega uma enorme quantidade de dilemas que não se limitam unicamente à difícil tarefa de problematização documental. Esses dilemas carregam um teor problemático que vigora há tempos na historiografia moderna e que se mostra profundo através da forma como será aplicada a análise metodológica desses documentos. É justamente esse conceito de discussão das matrizes metodológicas que vem sendo exaustivamente estudados por diversos historiadores ao longo do século XX, que conferem um contínuo caráter renovador ao estudo da história. Uma importante renovação dos preceitos norteadores do ofício do historiador se deu em 1929 com o surgimento na França da revista Annales d’Histoire Economique et Sociale, uma nova corrente metodológica possibilitou a historiografia um grande salto qualitativo. Tornou-se efetiva a possibilidade de desvincular a historiografia dos métodos majoritariamente aplicados durante grande parte do século anterior que faziam da disciplina um simples compêndio de informações que teriam a função de narrar os “grandes acontecimentos”, os “grandes fatos”, os feitos dos “grandes heróis” e pautada exclusivamente por uma reflexão das mudanças políticas promovidas por tais ações. Essa corrente, tributária da metodologia de Leopold Von Ranke, dominante no século XIX legou à historiografia que a sucedeu uma forte tradição no entendimento de conceitos generalizantes como a verdadeira função da historia, ou seja, a de explicar os fenômenos históricos através de grandes movimentos e escalas cujo entendimento na construção do conhecimento histórico se daria unicamente através de contínuas mudanças políticas no tecido social possibilitando uma compreensão totalizante das ações dos homens no tempo.

O que Marc Bloch e Lucien Febvre fizeram foi justamente ressaltar o verdadeiro papel do homem na ciência que estudavam, ou seja, o de agente fundamental na sua produção, sendo esse homem um grande político, um renomado intelectual ou um simples camponês, a todos é outorgado o papel de agente de transformação histórica. As diferentes possibilidades de análise documental que ambos buscaram elucidar trouxeram uma maior capacidade reflexiva aos historiadores, e consequentemente as reflexões sobre o papel desenvolvido pela sua ciência. Fundado em preceitos que, se pautaram sempre na interação com as demais ciências humanas em proveito do conhecimento histórico, o movimento dos annales passou a desenvolver e defender modelos metodológicos que não se faziam engessados e estáticos, ao contrário, os annales, ao abarcarem a multiplicidade de doutrinas e posicionamentos que as demais ciências ofereciam souberam refletir essa diversidade no seu contínuo processo de transformação.

Surgiram assim, ao longo do século passado, inúmeras correntes dentro dos annales que buscaram trazer sua contribuição para com a historiografia. O surgimento de uma vertente que buscou elucidar a história em pequenos recortes e movimentos apareceu em contraponto a essa tendência generalizante anteriormente citada. Essa corrente, capitaneada por uma impetuosa voluntariedade em abordar a história sob um olhar microanalítico se posicionou de certa forma como uma nova opção aos estudos embasados nas análises macroanalíticas o que nos leva a uma confrontação dos diferentes modelos.

Ao pesquisador um objeto subsidia inúmeras possibilidades de pesquisa e, quando aplicado um referencial metodológico que o mesmo vê como adequado são encontradas as condições necessárias para a pesquisa histórica. Por esse motivo a discussão sobre o modelo a ser seguido de fato vem sendo motivo para diversas e acaloradas discussões entre pesquisadores de diversas correntes, e a hegemonia de um sobre o outro reflete também a hegemonia de um método de escrita da história.

Não nos esqueçamos que a pesquisa histórica está intimamente ligada ao calçamento subjetivo de quem a realiza e por isso não pode ser desvinculada da ótica metodológica que o historiador transmite a sua obra. O triunfo dessa corrente reflete as necessidades cada vez mais visíveis que nossos tempos acabam impondo aos que se dedicam a entendê-lo, ou seja, a diversidade de discursos e recortes que não mais balizam uma pesquisa que se atenha ao entendimento maior da historia sem antes apontar diversas inconstâncias e possibilidades no discurso da produção da pesquisa histórica. Ao lançarmos vistas a essa nova ótica da pesquisa histórica podemos talvez

Mas também não devemos nos esquecer que o objetivo de se fazer uma narrativa que abarque uma “historia total” ou o “vôo da águia”, é possível a aqueles que se dedicam de forma incessante aos estudos e procuram estruturar sua construção do saber histórico continuamente no pluralismo.

Sendo assim ressaltar a importância de uma pesquisa diversificada, que seja construída de forma reflexiva e plural acaba se mostrando a melhor forma de nos posicionarmos.

Cabe a nós, futuros historiadores, definirmos a forma como enfrentaremos essas diversidades. Mas fica a sugestão de sempre buscarmos lançar olhares para a possibilidade de promoção do diálogo entre as vertentes que se fazem presentes na nossa caminhada rumo aos domínios de Clio.


Gabriel Costa; Giovanni Maciel e José Hailton Quaresma

domingo, 29 de maio de 2011

RECEITA: O BOM HISTORIADOR

O historiador, esse ser que, comumente, pensa-se, está imerso em papéis velhos e livros, a procura de pistas que revelem como os homens construíram suas experiências e configuraram a sociedade.
Como caracterizar o historiador?  Como ele constrói o conhecimento histórico?

São questões existenciais, para as quais deve haver respostas plausíveis!!
São questões que urgem respostas!!


 
Contribua, fornecendo uma "receita".  Não se esqueça: toda receita deve apresentar os ingredientes e detalhar o modo de preparo para obter sucesso.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dilemas do historiador, da visão telescópica ao jogo de escalas

            Ser historiador hoje em dia não é uma tarefa fácil. Antes de qualquer coisa, precisamos vencer a desconfiança natural em relação ao nosso trabalho, principalmente por parte das pessoas que nos cercam. Não são poucos os olhares de desconfiança que recebemos quando ingressamos no curso, bem como as comparações com outras pessoas das mais diversas áreas. Fato é que, fora os dilemas pessoais que um historiador enfrenta atualmente, existem inúmeros dilemas que temos que lidar ao desenvolver nosso trabalho.
            O que vamos estudar? Como vamos lidar com os novos conteúdos? Seriam eles muito diferentes dos quais estávamos acostumados? Essas são só algumas das muitas perguntamos que nos fazemos no começo do curso. Com o desenrolar do mesmo, percebemos que existe muito, muito mais a ser desvendado em nossos estudos, tanto como estudando outros autores, como produzindo nossas próprias obras. Um desses dilemas, que pode vir a se tornar um problema e tanto, diz respeito ao que colocaremos aqui como a visão telescópica e o jogo de escalas.
            Durante muito tempo o que prevaleceu nas pesquisas em história foi a chamada visão telescópica, ou seja, uma visão proveniente de um amplo campo de pesquisa da área. Esta visão ficou tão arraigada em nossos estudos, que durante muito tempo (e inegavelmente ainda hoje) somos apresentados á história por meio de fatos escassos e grandes figuras heróicas que podiam resolver guerras ou construir impérios “magicamente”. Os estudos de história sob a ótica da visão telescópica apresentam justamente esta alcunha de história baseada em grandes figuras e fatos determinantes em determinado contexto e época.
            Essa prática historiográfica só veio a se alterar de forma significativa no final do século XX, com um movimento que ficou conhecido como História Nova. A principal característica da História Nova foi justamente a diversificação de seus objetos de estudo, passando a tratar de temas nunca antes pensados, como história das crianças, da culinária ou das festas (somente citando alguns exemplos). Um dos grandes responsáveis por esta mudança foi a Escola dos Annales, grupo de estudiosos franceses de imensa influência no campo historiográfico, até nos dias de hoje.
            Ora, confrontado com essa mudança tão significativa, o historiador se viu diante de um dilema: continuar com a tradicional visão telescópica, ou então passar a abrir mais a mente para a micro-história. Entende-se por micro-história tudo aquilo que é passível de ser transformado em objeto histórico, mas que não o é por apresentar uma aparente “simplicidade” em sua forma ou conteúdo. A história do cotidiano, da vida comum de uma população ou grupo de pessoas, temas regionalistas de trabalho, tudo isso pode ser considerado como micro-história.
            É justamente com esse jogo de escalas e dilemas que o historiador precisa estar preparado para lidar. Em diversos momentos seremos obrigados a optar por um e isso às vezes pode ser uma escolha de bastante peso em sua vida. Mesmo assim, fazendo esse jogo de escalas, conseguimos trabalhar diversos temas das mais variadas áreas, aumentando assim nossa gama de conhecimentos. Acerca desta oposição entre visão telescópica e micro-história, Tânia Regina de Luca, em seu excelente texto História dos, nos e por meio dos periódicos, afirma:
“Ao longo do trajeto, a visão telescópica, proveniente do amplo campo de observação e das séries quantificáveis que não prescindiam do auxílio do computador – o mesmo Ladurie afirmou, em tom de ironia, “de agora em diante ou o historiador será programador, ou não será historiador” – foi confrontada com o olhar da micro-história, sensível e aos detalhes e objetos modestos, o que colocou em pauta a questão dos complexos “jogos de escalas” manipulados pelos historiadores.” [pag. 114]
            Como se pode perceber analisando este trecho, o historiador é confrontado com uma série de dilemas relacionados ao já mencionado jogo de escalas. À medida que nossos conhecimentos na área aumentam, bem como nossa experiência na prática de historiador, seremos capazes de melhorar nossa postura em relação a este conflito. A história já foi restringida pela visão telescópica durante tempo demais. É necessário existir um equilíbrio entre ela e a micro-história para que possa ocorrer uma real produção de conhecimento acerca de determinado recorte histórico. Tudo se trata um balanço entre os dois, balanço este que pode ajudar, e muito, um historiador em suas diversas pesquisas na vida acadêmica.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Bibliografia Complementar:
LUCA, Tânia Regina. A história dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas.São Paulo: Contexto, 2005.

Paleografia, o estudo da escrita antiga

Qual pesquisador seja ele estudante (nos projetos de Iniciação Científica ou pesquisas do gênero) ou mesmo historiadores, que nunca se sentiu em “apuros” ao se deparar com aquele desejado documento antigo, aquele elemento fundamental para sua pesquisa, que devido à caligrafia e à ortografia corrente em uma determinada época, torna-se um “bicho de sete cabeças”? De uma possível contribuição ao seu trabalho, o documento torna-se um “problema”.
Os cursos de História de uma maneira geral, ainda não se deram conta da importância do ensino ou mesmo de noções de uma ciência: a Paleografia. Etimologicamente falando, paleografia é um termo cuja origem advêm da Grécia, sendo que “paleo” significa antiga e “grafia” escrita, ou seja, “o estudo da escrita antiga”, podendo esta ser considerada uma ciência aliada da História.
Assim, as técnicas da paleografia permitem a leitura e conseqüentemente a transcrição e interpretação dos documentos antigos, dentre os quais, os manuscritos. A paleografia também é um grande aliado da lingüística, pois permite uma excelente análise das transformações sofridas pela língua de um povo em diferentes períodos cronológicos.
Porém, é na Arquivística, ou melhor, nos profissionais que se dedicam à tal função, é que a paleografia mostra-se de grande importância, pois é a partir da leitura de documentos e posterior classificação, que os pesquisadores (lingüistas, historiadores e outros) podem recorrer aos arquivos existentes, procurando realizar suas pesquisas. Não é atoa que entre as disciplinas do curso de Arquivologia (ainda pouco numerosos no Brasil, diga-se de passagem) está a paleografia.
A abundância de documentos existentes no país, conservados e acondicionados nos mais diversos ambientes, do período colonial ao republicano, exige muitas vezes o conhecimento da paleografia para sua leitura, transcrição e posterior interpretação. Soma-se a isso, atualmente, a disponibilização de documentos digitalizados na internet.
Sim, caro internauta! Atualmente alguns Arquivos disponibilizam documentos de seu acervo, cujo acesso está ao alcance de todos, bastando para isso estar conectado a um computador com internet. Isto democratiza e facilita o acesso ao documento a qualquer pesquisador, sem que ele saia de sua casa. No Brasil, temos o site do “Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília” (CMD/UNB), cujo acervo do Arquivo Ultramarino de Portugal está disponível para consulta.
Muitos pesquisadores afirmam que a leitura destes documentos antigos fica mais fácil com o passar do tempo, com o contato permanente do pesquisador com estas fontes. Porém, não podemos negligenciar a inestimável importância das noções de paleografia para o bom desenvolvimento do trabalho dos historiadores.
Os paleógrafos, peritos nesta ciência, conseguem mediante a análise de um documento, verificar sua autenticidade, determinar a interferência de outros agentes no processo da escrita, além de serem conhecedores das normas de transcrição. Ou seja, é um profissional da mais alta importância para Arquivos bem como para os pesquisadores.
Encerrando esta nossa participação, aproveitamos para comunicar aos interessados que ocorrerá em Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, o “I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática” que será realizado entre os dias 18 e 20 de Maio de 2011. As inscrições já estão abertas.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Links úteis:
I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática


Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília (CMD/UNB)


sábado, 30 de abril de 2011

Fontes Históricas

Em boa medida, a construção da escrita da História e suas reflexões inerentes são interpeladas por um dilema que perpassa os olhares analíticos de diversos historiadores: a utilização da visão telescópica ou do jogo de escalas. Como já apontado sabiamente por Laura de Melo e Souza, todo historiador digno desse nome, periodiza e se vale de recortes na confecção de suas pesquisas, no entanto, o modo como tais recortes e visões da história foram praticados ao longo do tempo nem sempre fora o mesmo, uma vez que estas são historicamente construídas e derivam das concepções do pesquisador acerca do que é história.
Nesse sentido, é importante vislumbrarmos como tais elementos eram vistos nos principais movimentos historiográficos dos últimos séculos, em uma abordagem bastante panorâmica, articulando-os também com o pensamento contemporâneo, afinal, a história é constituída das questões do presente, de inúmeros “agoras“, como sugeriu Walter Benjamin.
Durante muito tempo a escrita da História se ancorou em narrativas que apreendiam temas majoritariamente políticos. É importante ressaltar que aqui a política assume um caráter reduzido, restringindo-se aos governos, reis e príncipes. Desta maneira, os recortes já se encontravam estabelecidos, pois o próprio objeto de estudo da história também o estava. Estávamos, portanto, segundo René Rémond, diante de uma história factual e individual.
Todavia, não devemos ser reducionistas e atribuir essa concepção de história apenas ao positivismo ou ao historicismo, encarando ambos como correntes similares ou iguais, quando, na verdade, são completamente divergentes, até antagônicas. Posto isto, não devemos nos alongar nessa discussão, uma vez que este não é nosso objetivo em si e também por tal discussão extrapolar os limites deste espaço.
Considerada por Peter Burke como a “Revolução Francesa da Historiografia” e por José Carlos Reis, como uma renovação teórico-metodológica, a Escola dos Annales certamente amplia e desenvolve as noções básicas de fontes históricas. Assim, as fontes que antes eram restritas apenas aos documentos escritos, no caso dos positivistas, e a alguns símbolos, como no caso de historicistas a exemplo de Dilthey, são agora todos os vestígios produzidos pelos homens no tempo, como formulou Marc Bloch.


Marc Bloch (1886-1944), um dos fundadores da Escola dos Annales.
Em análise mais profunda, esse novo trato documental revela uma nova concepção acerca da história, uma nova representação do passado inaugurada pelos Annales. Há, portanto, um passado condicionado pelo presente e suas questões que engloba diversos atores, diversas possibilidades, temas, fontes, dimensões e abordagens da história. Deste modo, a história aspira, até certo ponto, a uma certa totalidade, buscando interligar as várias dimensões do homem e suas criações.
As contribuições, por exemplo, ao longo do tempo da história cultural nos demonstram tal fato com clareza quando passam ao considerar elementos da história oral ou a literatura – criando-se por vezes interessante interface com a arte e lingüística - abrindo-se ainda mais o leque de análise histórica. Ademais, com as recentes inovações tecnológicas, não podemos deixar de desconsiderar as fontes audiovisuais, bem como as virtuais, campo novo ainda a ser trabalhado pelos historiadores.
No bojo dessa contínua ampliação os dilemas e os perigos ao historiador se intensificam, ao ponto da ocorrência de uma fragmentação da historia, ou da existência de uma história em migalhas, como conceituou François Dosse, com certa dose de exagero e razão. Assim, diante desse amplíssimo panorama de possibilidades de análises históricas, o que devemos abordar? Quais recortes e quais fontes devemos utilizar? Devemos olhar as folhas da árvore, a árvore, algumas árvores ou toda a floresta, sabendo que em cada análise muito não será respondido, por mais que as perguntas surgem no decorrer da pesquisa?
De fato, a curiosidade e ânsia dos historiadores, sobretudo dos jovens e iniciantes, são enormes. No entanto, é necessário que o historiador possua determinado bom senso e crítica na delimitação de seu tema, para que o mesmo não opte por algo inviável que ultrapasse suas próprias possibilidades de pesquisa. As grandes sínteses ainda são possíveis, ao contrário do que pensam os pós-modernos, contudo, suas dificuldades são imensas e talvez somente os historiadores mais maduros consigam executá-las. O extremo oposto também é possível, como já provou a micro-história, o retorno das biografias e as histórias locais e regionais.
Deste modo, é fundamental o trabalho com as fontes e sua respectiva crítica. Os problemas e as delimitações surgem no âmbito das fontes, na atuação do historiador enquanto sujeito e objeto desta que, por sua vez, também é sujeito e objeto, em uma relação dialética. Para concluirmos, é sempre oportuna a leitura e os conselhos de Bloch: devemos ser interdisciplinares, pesquisar aquilo que as aspirações do presente nos ditam, mas, acima de tudo, devemos sempre manter a cientificidade da história. Assim, o dilema entre a visão telescópica e o jogo de escalas deve ser solucionado pelo historiador dentro da ciência histórica e, talvez a perpetuação e o repensar dessa ciência sejam a solução para tal dilema.

A pesquisa documental sob o prisma de um historiador

"Para exemplificar o trabalho com documentos, posso citar uma experiência que tive no Arquivo Público de Uberaba durante o IV período. Ao chegar no APU, tinha em mente que teria contato com documentos sobre a escravidão em Uberaba e região e a princípio até tinha um tema como norte da minha busca investigativa em meio aos “restos do passado”.
Ao analisar o catálogo dos documentos presentes sobre escravidão me deparei com uma imensidão de fontes sobre o mesmo tema, dentre eles resolvi delimitar minha análise aos processos crimes do final do Império.
Tive então o primeiro contato com o livro que continha os processos crimes da época selecionada, após passar por páginas e páginas de relatos do passado um processo me chamou atenção de uma forma que posso dizer que senti o cheiro da minha caça. O processo citado faz referencia a um caso de dois senhores que compram metade de um mesmo escravo para uso comum deles.
O contato propriamente dito com o documento foi desafiador, por se tratar de um olhar para o passado e pela diferente ortografia presente no documento forense. Justamente com a presença desse desafio proposto pelo documento ao historiador é que se constrói o diálogo entre o pesquisador e o documento analisado, emergindo assim o problema que irá nortear a pesquisa histórica. Aliado a esse exaustivo trabalho de interpretação – incluindo a análise linguística histórica – se faz necessária uma prática comum quando tratamos de documentos, a transcrição. Essa etapa depende totalmente do trabalho anterior citado uma vez que só podemos transcrever aquilo que conseguimos identificar como escrito. Dentro da experiência vivida devo frisar aqui que nem todas as expressões foram identificadas com clareza, visto que se trata de um documento do final do século XIX." Rodrigo Peres


Além disso, encontramos uma interessante entrevista do historiador Dr. João Carlos de Souza, acerca do trabalho com as fontes históricas. Vale a pena conferir:




Alunos: Anna, Rodrigo, Marcus e Keyller.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Acerca do documento

 A partir do excerto de Umberto Eco, o simpático grupo de meninas elaborou uma interessante reflexão. Deixe-se envolver:

       Para começarmos a atividade sobre o excerto de “Baudolino”, pretendemos expor este e os pontos principais dos textos vistos na disciplina de EDP – Educação e Desenvolvimento de Projetos 5 – para que, só após, fechemos nossa interpretação sobre aquela.

“Se queres transformar-te num homem de letras, e quem sabe um dia escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas”.
(Umberto Eco, Baudolino )

O primeiro texto a que tivemos acesso na Unidade Temática foi o de Leandro Karnal, “A memória evanescente”, capítulo inicial do livro O historiador e suas fontes, organizado por Carla Pinsky e Tania Regina de Luca. Neste encontramos um tema que já discutimos anteriormente em outros momentos do curso: a questão das fontes. Tal tema fez com que recordássemos do ensaio que fizemos no segundo período do curso – no qual, por meio dos textos que tivemos acesso durante o semestre, tivemos que estruturar uma obra particular, baseada nos textos estudados. Assim, nossa interpretação se misturaria e se basearia nas outras já presentes nestes textos – mas sem um “toque” pretencioso ou inventivo. Esse “toque” fez com que a estruturação e trato com as fontes fosse único e ímpar para a nossa construção enquanto historiadores. Soubemos os limites e as várias informações que pode-se retirar de um texto sem ao menos substituí-lo por outra fonte/viés. O “ver as entrelinhas” e o como a fonte pode despertar inúmeros olhares – mas os “bons olhares”, que sabem como a inferir/retirar uma construção fortificante – foram pois um dos primeiros contatos e ensinamentos que tivemos com à analise de fontes.                  
     O texto citado acima reforça a experiência que tivemos e trata/quer mostrar exatamente a complexidade das fontes. Relata que, no começo, somente material escrito – como cartas, escrituras, etc – eram considerados “verdadeiros documentos” e pois “verdadeiro material para passível construção de uma história”.
Já com o surgimento dos Annales e o estudo da micro-história, “documento” passa a ter outra interpretação/uso, passando a ser tudo o que retrata a ação do homem – como arte, oralidade etc. Isso equivale, pois, a dizer que houve uma ampliação de objetos e de sujeitos que agora são suscitados e trazidos à tona, desconstruindo certas formulações instituídas – politicamente, inclusive – e que modulam novos vieses de interpretação de uma mesma temática.
É em cima de tal questão/com base nisso é que o autor vai tratar da questão da “veracidade” das fontes. Se tudo o que era documento era verídico, porque então construir uma “nova história” em cima dos documentos? E agora, com a ampliação de fontes, tudo também é verídico ou atende a perspectivas da História? Como valer-se de um “verdadeiro” fato histórico ou de um “simples” fato? Vale, pois delinearmos isto melhor.
O autor ressalta e questiona no texto a questão da falsificação dos documentos ao longo de todo história. Os Faraós – no Egito antigo – já falsificavam documentos e tal “prática/hábito” se prolongou até o nosso presente – o que nos ilustra bem o “perigo” de se prolongar a questão de “documento” como obra puramente verídica. Juntando a esta ideia e passagem, há outro episódio interessante que relata a falsificação dos “diários de Hitler”. Neste presente episódio, os falsários não tiveram muita sorte e acabaram presos.
O que fazer nesta circunstancias? Como agir?
Até hoje persiste uma busca incessante pela autenticidade/verossimilhança dos documentos. Desta maneira, a ideia central de tal texto nos ilustra não somente o difícil trato do historiador com a sua fonte, mas, também, que os documentos são construções “humanas” e que, portanto, atendem aos mais diversos anseios e circunstâncias. Para isso, o historiador que aventura-se pelas construções e pesquisas que lhe interessem – demonstrando aí que o historiador apesar de ser um sujeito nem tão “não-determinista” assim, já que mostra seu anseio de optar em um tema e não em outro – deve tomar cuidado.
A fonte está dada, mas a construção desta deve passar pelos seus instrumentos adquiridos na qualificação de graduação, etc – que são o suporte que somente este tem para construir algo “fortificante” à História em geral. Portanto, o “construir uma história” é saber que ela está/é passível de desconstrução. E que o documento histórico – como o autor, Leandro Karnal, define – é “em, síntese, (...) qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre subjetividade atual e subjetividade pretérita”. (KARNAL, 2009)

       Já no segundo texto que estudamos, intitulado “Aventuras modernas e desventuras pós-modernas” de Elias Tomé Saliba – presente no mesmo livro –, este dá continuidade a discussão em torno das fontes. Relata uma questão de uma história mais presente, como a do holocausto, ocorrido na Segunda Guerra Mundial; a então denominada “história dos mortos-vivos”. Explica-se que em tal ocasião, a denominação advém da história relatada por pessoas que viveram certos momentos históricos e que, porém, não compartilham (e se compartilham, compartilham pouco) da história em que viveram/acumularam com seus descendentes/antepassados. Desta maneira, existe uma grande preocupação pelos historiadores para que tal história não seja esquecida ou distorcida após a morte da ultima testemunha de determinado momento histórico.
Ao passo que existe esta preocupação, também há outra questão em que o autor também observa/coloca em questão: que há uma busca exagerada pela verdade absoluta da história pelos historiadores.
Sob a égide destas questões, porém, o autor tem uma conclusão que traz um ponto de vista muito interessante: que a construção da historia é uma questão de escolha, ou seja, os documentos não existem de formas isoladas – eles não são restos do passado, mais um produto dele. Os “pontos de vista”, “o que” preservar e o “como” preservar, serão ditados às necessidades pela qual a estrutura cotidiana do historiador o exercita/suscita ou a necessidade de construção/desmistificação da qual a temática o apreende. O documento não vai dizer o que representa: cabe aos historiadores determinarem o significado destes – e que portanto/a partir disso, cada um terá um ponto de vista distinto/interpretação distinta do outro.
Segundo o autor – e reforçando; contudo encerrando este segundo texto – “o documento escrito ou não escrito é um pequenino ponto de toda série de estruturas humanas desaparecidas que, por capricho, fruição, contingência – e até mesmo algumas excentricidades – acabaram por sobrar e subsistir no presente”. (SALIBA, 2009)

            Com base nas duas exposições de textos vistos e o excerto de Baudolino, acreditamos ser de mais fácil visualização a proposta de tal atividade. Por Baudolino, apreendemos que parece ser mais “fácil” mentir para adquirir popularidade em um primeiro momento que simplesmente ser verdadeiro. Porém, como o mesmo fala, a mentira esvai se não ser bem contada ou se não ser direcionada de alguém que transparece “ser verdadeiro”. Mesmo assim, qualquer poeta (e aí, aquele que escreve sem o instrumental comparável do historiador) que retrate tal circunstancia, muitas vezes ganha o “reconhecimento” por tal feito ou por ter “dado o valor” à fonte de algum dado momento.
            Fica, nas entrelinhas portanto que qualquer um pode escrever qualquer história –  se não se tem um “filtro” de todas as coisas que chegam; uma construção do subjetivo que pode interferir no real, dependendo das circunstancias. Porém, “qualquer” história não pode ser aceita numa pesquisa/delineação/desmistificação de um historiador. Portanto, quando se exalta a qualidade de discussão de textos sobre fonte, é justamente o que o historiador deve ater-ser/voltar seu olhar quando pautar-se a escrever uma tese/temática delineada.
            O historiador aí distingue-se da faculdade de outros escritores justamente por ter o cabedal instrutivo de “como lidar” com as fontes e “como ater-se” à alguns parâmetros – sem querer pois um dado “reconhecimento” ou outra coisa que não seja apenas o “fato bem construído”. O determinismo – no que se refere a temática – deve tentar ser o menor e que, portanto, a verossimilhança dos fatos e estruturas sejam os seus objetivos sobre um dado momento histórico. Saber que sua construção – repetindo o que dissemos anteriormente – é passível de desconstrução com as novas fontes surgindo a todo o momento é que deve aliar/ajudar o pesquisador a entender a sua área e sua atuação enquanto profissional.
            Uma mentira formulada e repetida não deve ser o cabedal de instrução de um historiador e, evidenciando com a discussão do segundo texto, a “verdade incontestável” só deve ser chegada após a transformação de determinado fato em um verdadeiro – e portanto desmistificado – fato histórico – lembrando que este, como já disse, é (re)construído.
Ao passo que uma construção é desmistificada, não se pode desconsiderá-la também por inteiro: buscar suas causas de construção e servir de referencial deveras fortificante se deve apenas no “como” o historiador sabe manejar suas fontes. Portanto, nem toda mentira deve ser desconsiderada (como Baudolino de certa forma afirma), mas sim como ela é manejada/trabalhada/interpretada pelos historiadores que com seu cabedal oferece informações construtivas.

Autoras: Kamilla, Karine e Marcela.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bem-vindos aos domínios de Clio

- Sejam muito bem vindos!
Este “blog” foi criado viabilizando discussões do curso de “História” da UFTM para a UT intitulada “EDP 5”.
EDP 5 é uma unidade temática ministrada pela docente Sandra Mara Dantas e que articula discussões historico e historiográficas do período e que nesta etapa da formação acadêmica, aborda o caráter teórico e prático dos variados conjuntos documentais e suas formas de utilização na produção do conhecimento histórico, na pesquisa, no ensino e na extensão.
Sendo assim, a proposta deste blog é o acúmulo de documentos (impressos, visuais, sonoros, materiais, etc), pesquisa bibliográfica, curiosidades, (entre outros) com base nas bibliografias estipuladas pela disciplina e aperfeiçoadas por tais discentes.
O blog é de acesso público e comentários fazem parte do engrandecimento deste e dos discentes.
No mais, até a próxima!
Marcela Cristina de Faria.