terça-feira, 5 de julho de 2011

Fontes históricas e a revisão bibliográfica


“O estudo do passado não pode ser feito diretamente, mas de forma mediada através dos vestígios da atividade humana, a que é dado o nome genérico de fontes históricas. Embora com ligeiras cambiantes no significado, também se utilizam termos como documentos, testemunhos, vestígios ou monumentos. As fontes podem ser classificadas segundo vários pontos de vista, mas vamos aqui referir apenas as fontes materiais, as escritas, as iconográficas e as orais.

As fontes materiais ou documentos figurados constituem os vestígios materiais da atividade humana e que incluem as fontes arqueológicas em geral, os instrumentos de trabalho, os monumentos, as moedas, entre muitas outras. Algumas ciências auxiliares da história são dedicadas a este tipo de fontes, como a Arqueologia, a Numismática e a Sigilografia. No campo da História da Farmácia, estas fontes são muito importantes e incluem aquelas (almofarizes, potes de outros artefatos de farmácia) a cuja conservação se dedicam os museus de farmácia.

As fontes escritas são geralmente as de utilização mais geral e distinguem-se entre si pelo suporte e técnica utilizados na escrita. No estudo das épocas Moderna e Contemporânea, as fontes escritas utilizadas são normalmente classificadas em manuscritas (uma carta de boticário, uma receita) e impressas (uma farmacopéia, um periódico farmacêutico). Das fontes escritas se ocupam ciências auxiliares como a Paleografia, a Filologia, a Epigrafia, a Papirologia, a Diplomática. As fontes iconográficas são as que representam imagens (uma gravura, uma fotografia, um filme). As fontes orais incluem toda a informação e tradição que é conservada na memória dos indivíduos e transmitida oralmente de uns para outros. Estas fontes são particularmente importantes no estudo da história dos povos primitivos.” (J. P. Sousa Dias)


Para nós, historiadores, qualquer vestígio histórico que forneça alguma informação sobre o passado pode ser trabalhado como fonte, porém as fontes escritas e documentais são muito importantes, mas não devem ser fetichizadas como verdade absoluta, mas sim problematizadas de acordo com o contexto histórico em que estão inseridas e trabalhadas de modo crítico. Entre as fontes escritas e documentais, existem, além dos livros: documentos, papiros, pergaminhos, testamentos, cartas e até mesmo escrita em pedras ou blocos de argila como a escrita cuneiforme dos povos Sumérios.

No uso da escrita como fonte histórica, devem ser analisadas, através das revisões bibliográficas, as mais recentes obras científicas disponíveis que tratem do assunto ou que dêem embasamento teórico e metodológico para o desenvolvimento do projeto de um pesquisa além de ampliar a criticidade. Nelas também são explicitados os principais conceitos e termos técnicos a serem utilizados na pesquisa. Também chamada de “estado da arte”, a revisão da literatura demonstra que o pesquisador está atualizado nas últimas discussões no campo de conhecimento em investigação. Além de artigos em periódicos nacionais e internacionais e livros já publicados, as monografias, dissertações e teses constituem excelentes fontes de consulta.

Esse processo é de importância fundamental para que o pesquisador informe à banca examinadora o que ele leu sobre o tema, e evite abordar 'problemas' que já foram esgotados por outros trabalhos. Vale lembrar que revisão bibliográfica é diferente de uma coletânea de resumos ou uma 'colcha de retalhos' de citações; ela consiste numa análise crítica meticulosa e ampla das publicações correntes em uma determinada área do conhecimento.

De um modo geral, a revisão bibliográfica é realizada como parte inicial de um estudo científico, seja no nível da graduação ou pós-graduação, sendo parte fundamental em uma dissertação de mestrado ou numa tese de doutorado. Ela é, pois, fundamental para as pessoas que estudaram e trabalharam muito para desenvolver o conteúdo que no mínimo serviu de base para nossos trabalhos. O direito de reconhecimento de autoria é tão importante, pois ninguém iria gostar se usassem seu conhecimento sem o reconhecimento seus esforços.

FINDLAY, E. A. G. Guia para apresentação de projetos de pesquisa. Joinville, SC: UNIVILLE, 2006.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Literatura como Fonte.

A relação entre história e literatura é, de fato, bastante presente atualmente nas discussões historiográficas atuais, suscitando inúmeras discussões acerca da validade da literatura enquanto fonte aos estudos históricos ou mesmo acerca das fronteiras que distinguem os discursos históricos e literários. Contudo, tal relação não é nova. Já na Antiguidade, Aristóteles, na Poética (2006, p. 43), se preocupara em definir o que era poesia e o que era história, encontrando tal distinção não na forma da narrativa, mas abordagem de cada uma destas: para Aristóteles o que difere o poeta do historiador, é o que primeiro narra aquilo que poderia ter acontecido, enquanto o segundo possui o compromisso em narrar aquilo que aconteceu. Em decorrência disto, a poesia, por seu caráter universal, é mais elevada que a história, em seu caráter particular.

Refletindo acerca dos tempos modernos, podemos notar que a preocupação com a literatura nos estudos históricos ainda se faz presente em diversas correntes e pensamentos. Dentre os autores do século XIX podemos elencar Wilhem Dilthey, no qual há uma linha tênue entre o que separa a história da arte ou mesmo da literatura; Jacob Buckhardt, refletindo acerca da poesia neolatina no Renascimento Italiano e Marx e Engels, mesmo que em apontamentos diversos e esparsos sobre a Idade Média, literatura russa, dentre outras.

Todavia, uma preocupação mais sistematizada e organizada da literatura enquanto fonte histórica surge somente no século XX, já na primeira geração da Escola dos Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre. Como cunhado por Bloch, em A Apologia da História, a história é ciência dos homens no tempo, de modo que quaisquer vestígios legados pelos homens ao presente são fontes em potencial para a compreensão da história. Assim, não apenas aqueles documentos oficiais adentram o rol de possibilidades de fontes, mas todos os textos, como aponta Febvre:

Os textos, sem dúvida, mas todos os textos. E não só os documentos de arquivos em cujo favor se cria um privilégio [...]. Mas também um poema, um quadro, um drama: documentos para nós, testemunhos de uma história viva e humana, saturados de pensamentos e de ação em potência. (FEBVRE apud FERREIRA, 2009, p. 64)


Portanto, cônscios das possibilidades do uso da literatura enquanto testemunho humano saturado de pensamentos e ações, devemos refletir sobre como utilizar a fonte literária, visto que cada tipo de fonte possui sua linguagem intrínseca e necessita de um determinado trato. Para tanto, nos utilizaremos das reflexões de Erza Pound e
de Antonio Cândido.

De acordo com Ezra Pound (2006) literatura é linguagem carregada de significados, de modo que o poema é uma estrutura condensada na qual o autor se utiliza de elementos formais para exprimir uma mensagem. Com Antonio Cândido, em suas obras Literatura e Sociedade e Estudo Analítico do Poema, podemos perceber que tais significados contidos no texto literário vão além daqueles contidos apenas no poema, havendo uma estrutura interna e externa do texto.

Para Cândido, a estrutura interna é composta por aquilo que está efetivamente dentro do texto, as palavras, rimas, métrica e outros recursos formais. A estrutura externa é aquilo que se encontra fora do texto, onde se encaixam os aspectos históricos, sociais e filológicos referentes ao texto. Deste modo, podemos notar com Cândido que os textos literários são históricos e só são escritos mediante às possibilidades de seu tempo histórico. Assim, o estudo da literatura pelo historiador deve se pautar na análise dialética destas duas estruturas, uma vez que a própria estética também é histórica.

Deste modo, o discurso literário possui profundas raízes históricas, de modo que a partir deste é possível que obtenhamos visões acerca da sociedade de determinadas classes sociais, determinados valores políticos, religiosos, etc. que são expressos esteticamente por meio da literatura. A palavra é um arena, como expressa Mikhail Bakhtin, onde se confrontam valores sociais contraditórios, onde a própria luta de classes pode ser expressada. Assim, a linguagem e as palavras denotam o conhecimento de mundo do próprio autor.

Maria Aparecida Baccega nos dá um exemplo bastante interessante e didático acerca disto, no qual a simples utilização de uma palavra em detrimento de outra altera todo o significado e valores de quem a utiliza. Chegar ou descobrir a América? Questão aparentemente banal que esconde atrás de si discursos e poderes. De acordo com a autora, o uso da expressão chegar mostra que o autor compreende que há populações autóctones que viviam no continente antes da chegada do europeu; no segundo caso o autor do discurso entende que os índios são como uma tábula rasa, sem cultura ou mesmo história.

A partir do que fora exposto pudemos perceber nitidamente que o discurso literário é polifônico e polissêmico, sincrônico e diacrônico, de modo que as possibilidades de trabalho com esta fonte são quase que infinitas, o que justifica Antônio Celso Ferreira nomear a literatura por fonte fecunda. Obviamente os recortes e bom senso do pesquisador devem operar para a prática de uma pesquisa rica e ao mesmo tempo exeqüível.

Além dos recortes é necessário que o historiador conheça sua fonte de modo aprofundado, o que significa que este deverá realizar alguns estudos literários. A abertura da história às múltiplas linguagens inevitavelmente obriga o historiador à busca de uma nova erudição, como aponta Elias Thomé Saliba. No entanto, por vezes, essa busca pela nova erudição tem dissipado a fronteira entre a história e a literatura e entre a ciência e a ficção.

Antonio Celso Ferreira aponta para a existência de um crítica pós-modernista, que também encontra eco na própria historiografia, que defende que a história é fundamentalmente uma narrativa como a literária. Um dos maiores expoentes dessa corrente é Hayden White, que propõe que as narrativas históricas são “ficções verbais, cujos conteúdos são tão inventados como descobertos, e cujas formas têm mais em comum com suas contrapartidas na literatura do que na ciência.” (WHITE apud FERREIRA, 2009, p. 77)

Retomar o pensamento de Marc Bloch nesses momentos é realmente eficaz e oportuno. Para Bloch, o historiador deve ser, de fato, interdisciplinar, dialogando com as mais diversas áreas do conhecimento e se utilizando das mais diversas fontes possíveis, mantendo sempre a sua identidade de historiador: o cientista dos homens no tempo. Antônio Celso Ferreira também faz apontamentos nesse sentido:


Essa lembrança é essencial para o pesquisador que trabalha com textos literários, sobretudo os de ficção histórica. É certo que o caráter polifônico destes, pelo diálogo que estabelecem entre as diferentes vozes das personagens, além da voz do narrador, possibilita a investigação da complexidade do imaginário histórico, da diversidade das ideologias e dos modos como os diferentes indivíduos ou grupos sociais se inserem dentro dele em determinadas épocas. Contudo, tais representações constituem sempre um universo ficcional, por mais verossímil que seja. O papel do historiador é confrontá-las com outras fontes, ou seja, outros registros que permitam a contextualização da obra para assim se aproximar dos múltiplos significados da realidade histórica. (p. 77)


Portanto, o trabalho com a literatura pelo historiador é um trabalho que exige a crítica da fonte e o estabelecimento de uma metodologia para este fim, de modo que o discurso do historiador se torna um discurso científico, em uma concepção de ciência que não almeja uma objetividade ou uma verdade absoluta, mas que buscar a apreensão de alguns aspectos da realidade histórico, mesmo que de modo aproximado ou representativo.

Sabendo-se disso e tomando todos os cuidados necessários à pesquisa em história, a literatura se torna um campo vasto, prazeroso e fecundo ao historiador que se dedica a esta, podendo abordá-la tanto pelo viés estético ou de seu conteúdo; articulando ambos; refletindo acerca da historicidade de um movimento literário em específico; ou mesmo pensar as proposições de um autor ou o conflito entre dois ou mais autores.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ARISTÓTELES. Arte Poética. Tradução: NASSETI, Pietro. São Paulo: Editora Martin Claret, 2006.
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e Discurso: Literatura e História. São Paulo: Editora Ática, 2000.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução: LAHUD, Michel; VIEIRA, Yara Fratechi. São Paulo: Editora Hucitec, 12ª Edição, 2006.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Tradução: TELLES, André. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2001.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade: Estudos de teoria e história literária. RJ: Editora Ouro sobre o Azul, 9ª Edição, Rio de Janeiro, 2006.
FERREIRA, Antonio Celso. A Fonte Fecunda. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.); DE LUCA, Tania Regina (org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Editora Contexto, 2009.
POUND, Ezra. ABC da Literatura. Tradução: CAMPOS, Augusto de; PAES, José Paulo. São Paulo: Editora Cultrix, 11ª Edição, 2006.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: Tensão social e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2ª Edição, 2009.


Discente: Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira.

Sobre o uso de fontes fotográficas


Criada no século XIX, a fotografia, além de se constituir uma das mais emblemáticas invenções da modernidade, tornar-se-á um dos principais símbolos da cultura ocidental, calcada fundamentalmente nas imagens – dando a materialidade a cultura. Nesse sentido, a fotografia constitui-se não só como uma inovadora forma de se ver o mundo – um registro, uma imagem permanente, um fragmento de memória - mas também uma forma de expressão artística e importante referência documental no campo da pesquisa nas ciências sociais.

             Imagem da primeira fotografia permanente do mundo feita por Nicéphore Niépce, em 1825

No entanto, mais do que uma discussão no que se refere aos signos e significações que englobam a fotografia, um aspecto importante é como se dão esses processos de criação de sentidos e interpretação deste tipo de fonte.  Se em um primeiro momento, os retratos foram deixados de lado nas análises historiográficas, não se pode dizer o mesmo após a revolução documental desencadeada na Escola dos Annales.

 “Com a revolução documental das últimas décadas e, com o alargamento do conceito que o termo ‘documento’ passou a ter, a fotografia começou a ser tratada de forma diferenciada. ‘Não há história sem documentos’ assinalou Samaran. ‘Há que se tomar a palavra ‘documento’ no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem, ou de qualquer outra maneira.” (KOSSOY, p. 28)

neste caso, creio que um dos principais dilemas que não só o historiador, mas o pesquisador das ciências sociais e humanas de forma geral é lidar com a suposta objetividade do documento fotográfico. Portanto, devemos compreender a mesma em seu processo histórico. Segundo Justo (2008, p.31):
Assim, dada uma nova compreensão no sentido de fonte, o desafio se coloca em sua análise e critica interna; 


“É inerente à fotografia o corte, a seleção e, conseqüentemente, a lacuna. Não é possível nela capturar a realidade absoluta. Não se pode ter certeza do tempo e do espaço que a fotografia apresenta devido à sua materialidade estática e ao enquadramento fixo. Entretanto, estes aspectos limitantes da imagem fotográfica são justamente o que nos permite ir além do explícito. A transcendência do tempo e do espaço permite que a memória e a narrativa preencham as lacunas impostas pelo recorte fotográfico.”

Assim, a partir da colocação da autora acima, podemos extrair três elementos fundamentais na compreensão do documento fotográfico:

  1. Investigação da intencionalidade da fotografia;
  2. Interpretação do momento histórico em que este documento produzido se insere, bem como dos elementos presentes na fotografia;
  3. Crítica aos caminhos percorridos por essa fotografia, bem como as suas possíveis (re) significações.

Ainda no sentido da interpretação deste tipo de fonte, Boris Kossoy, importante referência na pesquisa de fontes fotográficas, nos traz em sua obra Fotografia e História (1989) interessante esquema de análise das mesmas.



Portanto, a partir dos argumentos expostos fica evidente o caráter não-objetivo da fotografia como se pensava inicialmente nos campos da pesquisa histórica; mais que isso, a mesma se mostra impregnada de sutis referências subjetivas desafiando a capacidade critica do pesquisador. Aos moldes do próprio ambiente em que se deu a gênese da fotografia – há mais de 200 anos atrás, na tentativa de se imprimir a objetividade – símbolo da racionalidade moderna – a fotografia, assim como o próprio homem moderno - ainda registra em suas linhas sutis toda a complexidade e urgência do sentimento humano.

Anna Lívia Gomes
História - 5°  Período

Referências Bibliográficas

KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica; introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo, Museu da Ind. Com. e Tecnologia de São Paulo - SICCT -1980.

KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo, Ateliê Editorial. 1989.

JUSTO, Joana Sanches. Olhares que contam histórias: a fotografia como memórias e narrativas da família. 2008. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Assis, 2008.

O uso de programas televisivos como fonte histórica

A televisão, enquanto sistema de sons e imagens, começou a ser desenvolvido em 1923, sendo completado em 1927. Ele se tornou amplamente difundido após a Segunda Guerra Mundial, se aproveitando dos avanços tecnológicos disponíveis na época. No Brasil, ela chegou em 1948, mas, devido à dificuldade de transmissão e alto custo demorou, para se tornar o instrumento popular que é hoje.
Atualmente, não há como pensar em nossa sociedade sem relacioná-la com a televisão. Ela está inserida em nosso contexto, tanto cotidiano quanto global, fazendo parte de nossas histórias. Quem não se lembra, com saudade, dos programas que assistia quando era mais jovem? Podemos afirmar que a televisão é um próprio meio de entrar em contato com o passado, de voltar às suas raízes. Justamente por ter esse poder que a televisão pode ser usada como documento histórico, uma vez que (muitas vezes) está imerso na própria história de um determinado lugar, registrando os acontecimentos e se tornando elemento ativo da história.
Os pesquisadores de história têm encontrado certas dificuldades em trabalhar com o meio televisivo, devido a algumas barreiras que se colocam durante a pesquisa. Acerca disto, Marcos Napolitano em seu ótimo texto A história depois do papel, afirma:

A própria televisão, talvez devido ao seu caráter de produto cultural volátil, tem muita dificuldade em guardar e sistematizar a sua própria memória. Na medida em que os órgãos e arquivos públicos não assumiram a guarda do material televisual como parte de uma política de preservação de patrimônio, a maioria dos arquivos existentes é privada e pertence às próprias emissoras, que, por sua vez, os tratam como desdobramentos das suas atividades comerciais (NAPOLITANO, 2005; pag. 247-248)

Devido a estes problemas, muitos pesquisadores se sentem desmotivados para trabalhar com os arquivos referentes à televisão, pois eles não se enquadram na definição tradicional de “fonte histórica”. No entanto, mesmo com os problemas referentes aos direitos autorais e monopólio de arquivos por parte das emissoras, eles são dignos de serem estudados, por mostrar uma importante parte da história.

É preciso cuidado ao analisar a televisão como fonte histórica, pois ela tem um apelo social muito grande, sendo recebida de formas diferente pelas diversas camadas sociais. Além disso, é importante saber que a televisão é, muitas vezes, de caráter notadamente manipulativo, onde os programas são exibidos com finalidade de controlar ou direcionar uma parcela da população. Notadamente durante a ditadura militar, isso ocorreu de forma sistemática.
Mesmo que ela, por vezes, apresente este caráter, ainda é válido analisá-la. Muito pode ser aprendido se assim for feito. Nos arquivos das grandes emissoras de TV, existem verdadeiras jóias, como os festivais de música tradicionais dos anos 60, ou o a cobertura de momentos como a queda do Muro de Berlim. Se pensarmos neste sentido, podemos perceber a validade dos registros televisivos como fonte histórica, uma vez que ela nos fornece dados valiosos sobre a interpretação do passado. Logicamente, esses dados devem ser analisados com cautela, mas, não devemos, como sugerem alguns pesquisadores, descartar os registros televisivos totalmente. Fenômenos como a diversidade de mensagens emitidas pela televisão, impacto social que elas apresentam, e mistura de significados com outras mídias podem sim atrapalhar uma potencial pesquisa a respeito do assunto.
Talvez a maior dificuldade seja mesmo o caráter privado dos arquivos televisivos. Cabe ao pesquisador contornar este obstáculo para fazer uma boa pesquisa nesta área, considerada como pioneira por muitos estudiosos acerca de fontes históricas.

Bibliografia

NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: Fontes históricas. Pinsky, Carla B.(org.). São Paulo: Contexto, 2005.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Ed. Jorge Zahar, 1997.

ORTIZ, R. A moderna tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988.

Discente: Brunno Silva Martins

segunda-feira, 27 de junho de 2011

História e Cinema

A busca de meios didáticos/pedagógicos para relembrar a importância de um passado histórico é necessária na medida em que se procura um sentido de continuidade dialética ao acontecimento. Assim, pensamos em utilizar o recurso Audiovisual a fim de inserir o aluno no contexto histórico no intuito de relembrá-lo da importância da utilização de um conhecimento passado para a construção do saber presente.
O papel do docente se constitui em “orquestrar” um potencial emergente de idéias e interesses no intuito de apresentar um caminho, objetivando o espetáculo onde diversas mentes se interagem formando um pensamento com diversas vertentes que se complementam e atingem os objetivos esperados.
O fato está ligado no que disse Elias Thomé Saliba, à manipulação cultural e a transformação de acontecimentos em ícones parcialmente tendenciosos. O incentivo a uma real interpretação (ou pelo menos parcial) deve ser feita estabelecendo um aparato de meios de conhecimento bilaterais sobre o tema proposto, proporcionando a criação de um alicerce teórico, individual e reflexivo de cada aluno referente ao objeto de pesquisa.
Compartilhando o que disse Selva Guimarães Fonseca e a teoria de Jaime e Carla Pinky; é necessário a introdução de recursos tecnológicos nas práticas docentes incentivando a pesquisa e o pensamento crítico/analítico de meios de informações não tão confiáveis que estão à disposição e devido a facilidade são, cada vez mais, sendo utilizados pelos nossos alunos. Não se trata de privar tais alunos da utilização desses recursos mais, pelo contrário, incentivá-los – policiando-os e orientando-os – para uma utilização adequada, sem ingenuidade e nostalgia.
Combate-se assim, o que explica a professora Maria de Lourdes M. Janotti, o conhecimento do presente por ele próprio, mais sim através de um conhecimento histórico adquirido através de fontes confiáveis, sempre guiados pelo docente.

Referências bibliográficas:

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Editora Contexto, 2 ª Edição, 2004.
PINSKY, Jaime; PINKSY, Carla Bassanezi. O que e como Ensinar: Por uma História Prazerosa e Conseqüente. In: KARNAL, Leandro (org.) História na Sala de Aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Editora Contexto, 5ª EdiçãoFERREIRA
SILVA, Marcos; FONSECA, Selva Guimarães. Ensinar História no Século XXI: Em busca do tempo entendido. Campinas: Editora Papirus, 2007.
FONSECA, Selva Guimarães. Didática e Prática de Ensino de História: Experiências, reflexões e aprendizados. Campinas: Editora Papirus, 2003.
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. História nas atuais propostas curriculares. In:Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Editora Cortez, 2004.

Por Gabriel Costa

sábado, 25 de junho de 2011

Fontes para o Ensino de História.


Pensar o ensino de história para a educação básica implica em rever as histórias que eram ensinadas até os dias de hoje. Mediante a isso inicio minha reflexão com uma citação de Sérgio Buarque de Holanda:


“Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa dos figurantes mudos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história.” (HOLANDA apud BITTENCOURT, 2008, p.185)



Frente a essa posição então de que a história deve ser vista também com o olhar das multidões e não apenas dos grandes nomes que se perpetuaram no tempo, quero pensar que a História do Brasil está ligada ao processo de formação de uma identidade nacional, identidade essa que até então sempre foi tratada como homogênea e em sua constituição sem participação de culturas ou povos diferentes, ou seja, sem tratar da diversidade cultural que constitui o povo brasileiro (BITTENCOURT).
Eis então um desafio ao professor, o ensino de história. Achar uma solução para tal situação não é tão fácil, e nem pretendo aqui propor uma receita de bolo, mas sim pensar sobre as formas de se ensinar história, em especial o ensino fundamental. Para isso então proponho a utilização de um tipo de fonte onde seja possível a percepção do aluno sobre os elementos que deve-se perceber.
A utilização de um tipo de fonte primeiramente deve ser pensada com cuidado para cada série específica do ensino fundamental – assim como no ensino médio – para não inviabilizar a atividade, sendo assim não se deve utilizar um filme que apresenta uma linguagem difícil para alunos do 6º ano por exemplo (NAPOLITANO). Com o mesmo cuidado deve-se escolher os tipos de fontes e seu conteúdo, pensando em sua acessibilidade, os objetivos que se pretende atingir com aquele tipo de fonte etc.
Pois bem, proponho então a utilização de uma fonte documental para o 7º ano do ensino fundamental, o documento seria utilizado para se compreender um dos olhares sobre a sociedade escravocrata no Brasil durante o século XIX. Para tal reflexão seria utilizado a transcrição de uma carta escrita por um ex-escravo em 1880, no qual há o relato de sua trajetória no Brasil desde que seu pai o vendera como escravo. O agente em questão é Luiz Gama, poeta negro, livre que é vendido pelo pai aos dez anos, passa por vários senhores até que é alfabetizado passando a lutar pela sua liberdade roubada e pela liberdade de outros cativos.
A reflexão que emerge aqui então é como um filho de escrava liberta, portanto livre, assume uma condição de escravo e principalmente como este enxerga a sociedade em que está imerso. Através desse olhar expresso na carta escrita por Gama percebemos os elementos fundamentais da sociedade brasileira do século XIX, principalmente quando há a narrativa dos diálogos entre Luiz Gama e seu senhor que se nega a dar a liberdade ao escravo.

Anexo

São Paulo, 25 de julho de 1880

Meu caro Lúcio

Recebi o teu cartão com a data de 28 do pretérito.
Não me posso negar ao teu pedido, porque antes quero ser acoimado de ridículo, em razão de referir verdades pueris que me dizem respeito, do que vaidoso e fátuo, pelas ocultar, de envergonhado: aí tens os apontamentos que me pedes e que sempre eu os trouxe de memória.
Nasci na cidade de S. Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguezia de Sant'Ana, a 21 de junho de 1830, por as 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio — era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.
Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma "casa de dar fortuna", em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses "amotinados" fossem mandados por fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores.
Nada mais pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo, e estando em comissão do governo, na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.
Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país, constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo; e pertencia a uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico; e, nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e, reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luiz Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".
Remetido para o Rio de Janeiro, nesse mesmo navio, dias depois, que partiu carregado de escravos, fui, com muitos outros, para a casa de um cerieiro português, de nome Vieira, dono de uma loja de velas, à rua da Candelária, canto da do Sabão. Era um negociante de estatura baixa, circunspeto e enérgico, que recebia escravos da Bahia, à comissão. Tinha um filho aperaltado, que estudava em colégio; e creio que três filhas já crescidas, muito bondosas, muito meigas e muito compassivas, principal-mente a mais velha. A senhora Vieira era uma perfeita matrona: exemplo de candura e piedade. Tinha eu 10 anos. Ela e as filhas afeiçoaram-se de mim imediatamente. Eram cinco horas da tarde quando entrei em sua casa. Mandaram lavar-me; vestiram-me uma camisa e uma saia da filha mais nova, deram-me de cear e mandaram-me dormir com uma mulata de nome Felícia, que era mucama da casa.
Sempre que me lembro desta boa senhora e de suas filhas, vêm-me as lágrimas aos olhos, porque tenho saudades do amor e dos cuidados com que me afagaram por alguns dias.
Dali saí derramando copioso pranto, e também todas elas, sentidas de me verem partir.Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires. Nesta casa, em dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antônio Pereira Cardoso, o mesmo que, há 8 ou 10 anos, sendo fazendeiro no município de Lorena, nesta Província, no ato de o prenderem por ter morto alguns escravos a fome, em cárcere privado, e já com idade maior de 60 a 70 anos, suicidou-se com um tiro de pistola, cuja bala atravessou-lhe o crânio.
Este alferes Antônio Pereira Cardoso comprou-me em um lote de cento e tantos escravos; e trouxe-nos a todos, pois era este o seu negócio, para vender nesta Província.
Como já disse, tinha eu apenas 10 anos; e, a pé, fiz toda viagem de Santos até Campinas.
Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e, por todos repelido, como se repelem cousas ruins, pelo simples fato de ser eu "baiano".
Valeu-me a pecha!
O último recusante foi o venerando e simpático ancião Francisco Egidio de Souza Aranha, pai do exmo. Conde de Três Rios, meu respeitável amigo.
Este, depois de haver-me escolhido, afagando-me disse: "— Hás de ser um bom pajem para os meus meninos; dize-me: onde nasceste?
— Na Bahia, respondi eu. — Baiano? — exclamou admirado o excelente velho. — Nem de graça o quero. Já não foi por bom que o venderam tão pequeno". Repelido como "refugo", com outro escravo da Bahia, de nome José, sapateiro, voltei para a casa do sr. Cardoso, nesta cidade, à rua do Comércio nº 2, sobrado, perto da igreja da Misericórdia.
Aí aprendi a copeiro, a sapateiro, a lavar e a engomar roupa e a costurar.
Em 1847, contava eu 17 anos, quando para a casa do sr. Cardoso, veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, tendo deixado a cidade de Campinas, onde morava, o menino Antônio Rodrigues do Prado Júnior, hoje doutor em direito, ex-magistrado de elevados méritos, e residente em Mogi-Guassu, onde é fazendeiro.
Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras.
Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma cousa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antônio Pereira Cardoso, que aliás votava-me a maior estima, e fui assentar praça. Servi até 1854, seis anos; cheguei a cabo de esquadra graduado, e tive baixa de serviço, depois de responder a conselho, por ato de suposta insubordinação, quando tinha-me limitado a ameaçar um oficial insolente, que me havia insultado e que soube conter-se.
Estive, então, preso 39 dias, de 1º de julho a 9 de agosto. Passava os dias lendo e às noites, sofria de insônias; e, de contínuo, tinha diante dos olhos a imagem de minha querida mãe. Uma noite, eram mais de duas horas, eu dormitava; e, em sonho vi que a levavam presa. Pareceu-me ouvi-la distintamente que chamava por mim. Dei um grito, espavorido saltei da tarimba; os companheiros alvorotaram-se; corri à grade, enfiei a cabeça pelo xadrez. Era solitário e silencioso e longo e lôbrego o corredor da prisão, mal alumiado pela luz amarelenta de enfumarada lanterna.
Voltei para a minha tarimba, narrei a ocorrência aos curiosos colegas; eles narraram-me também fatos semelhantes; eu caí em nostalgia, chorei e dormi.
Durante o meu tempo de praça, nas horas vagas, fiz-me copista; escrevia para o escritório do escrivão major Benedito Antônio Coelho Neto, que tornou-se meu amigo; e que hoje, pelo seu merecimento, desempenha o cargo de oficial-maior da Secretaria do Governo; e, como amanuense, no gabinete do exmo. sr. conselheiro Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, que aqui exerceu, por muitos anos, com aplausos e admiração do público em geral, altos cargos na administração, polícia e judicatura, e que é catedrático da Faculdade de Direito, fui eu seu ordenança; por meu caráter, por minha atividade e por meu comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho.
Em 1856, depois de haver servido como escrivão perante diversas autoridades policiais, fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que "por turbulento e sedicioso" fui demitido a "bem do serviço público", pelos conservadores, que então haviam subido ao poder. A portaria de demissão foi lavrada pelo dr. Antônio Manuel dos Reis, meu particular amigo, então secretário de polícia, e assinada pelo exmo. dr. Vicente Ferreira da Silva Bueno, que, por este e outros atos semelhantes, foi nomeado desembargador da relação da Corte.
A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas idéias; e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os Reis.
Desde que fiz-me soldado, comecei a ser homem; porque até os 10 anos fui criança; dos 10 aos 18, fui soldado. Fiz versos; escrevi para muitos jornais; colaborei em outros literários e políticos, e redigi alguns.
Agora chego ao período em que, meu caro Lúcio, nos encontramos no "Ipiranga", à rua do Carmo, tu, como tipógrafo, poeta, tradutor e folhetinista principiante; eu, como simples aprendiz-compositor, de onde saí para o foro e para a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime.
Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que me estimas deveras.

Teu Luiz.


Acredito então que a utilização de tais fontes em sala de aula, e no caso fontes produzidas com olhares das multidões em contraponto ao livro didático ou material, faz emergir questões sobre a época retratada e principalmente a postura crítica, despertando assim o interesse do aluno.
É mediante a utilização desse documento que os alunos poderão perceber se questionar sobre a identidade da sociedade brasileira do século XIX, quais elementos a constituem e quais os olhares tendem a hegemonia nesse período. Aliado ao documento o aluno poderá analisar também as obras poéticas de Luiz Gama.


Referências:

BITTENCOURT, Circe. Identidade Nacional e ensino de história no Brasil. IN KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2008

MARTINS, Heitor. Luís Gama e a Consciência Negra na Literatura Brasileira. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n17_p87.pdf (acesso em 24/06/11)

MATTOS, Hebe Maria. A Face Negra da Abolição. In: Revista Nossa História. Maio de 2005.

Rodrigo P. L. Domiciano

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Receita para um bom Historiador






Ingredientes:

1 Recorte na História
2Kg de fundamentação teórica
2,5 kg de paixão pelo tema
1/2 copo (tipo americano) de tempo
1 ambiente tranquilo
2 pacotes de fontes
1 caderno com muitas folhas em branco
Orientação ( a gosto)
Financiamento de Pesquisa
2 doses de discussões
5 kg de crítica
10 kg de leituras

Modo de Preparo:

Em uma tigela adicione o Recorte na História junto com a paixão pelo tema, mexa bem. Deixe descansar em temperatura ambiente por duas horas, adicione aos poucos Tempo, Fontes e não se esqueça do bom e velho Caderno em Branco.

Em uma panela leve a mistura ao fogo baixo até que a mistura atinja consistencia. Retire do fogo, espere esfriar e despeje em uma forma untada com Orientação e separe.

A parte misture Crítica, Leitura e discussões, depois despeje sobre a massa e levve ao forno.

Após assado, polvilhe com Financiamento de Pesquisa a vontade.


Anna Lívia Gomes, Marcus Oliveira, Rodrigo Peres L. Domiciano, Keyller Rodrigues

quinta-feira, 23 de junho de 2011

RECEITA: O BOM HISTORIADOR




Ingredientes:

·  Um pacote com o máximo de livros disponíveis;
·  Uma pessoa comum;
·  1 Kg de aptidão;
·  5 Kg de interesse;
·  Diversas porções de professores universitários;
·  500g de boas amizades;
·  Dois cadernos com, no mínimo, 500 folhas cada;
·  Disposição à vontade;
·  Paciência; (opcional)

A receita deve ser feita em ambiente universitário de alta qualidade para um melhor aproveitamento do ingrediente principal, a pessoa.

Modo de Preparo:

 - Colocar a pessoa comum no citado ambiente e ficar atento para os recheios, são eles que irão dar a consistência esperada.
- Preencher os espaços vazios com aptidão e interesse; ressalta-se que toda pessoa vem com essas características de fábrica, porém, se julgar necessário, a quantidade pode ser aumentada.
- Introduzir as boas amizades para que esta pessoa possa chegar ao ponto e somente depois acrescentar as porções de professores;
- É necessário estar com os cadernos sempre à disposição, eles serão de extrema importância para anotar as recomendações de leitura.
- O pacote de livros é extenso então, julga-se salutar considerar o ingrediente opcional (paciência), pois, sem ela, a pessoa poderá não chegar ao ponto e sua receita não funcionara. Ressalva-se que, em raríssimos casos, sem a paciência, chega-se a um ótimo resultado, entretanto a pessoa ficará amarga e os amigos acrescentados serão desperdiçados.
 - Deixe assar por no mínimo quatro anos e seu historiador estará pronto! Aproveite.

Os caminhos percorridos àquele que deseja se tornar um bom historiador é marcado por grandes desafios e obstáculos. Estes empecilhos são dispostos nesta trilha a fim de atingirem todo o potencial que o candidato é capaz alcançar e estão presentes em características peculiares como a curiosidade, o gosto pela leitura, a dedicação, persistência, criatividade, inspiração, paciência e principalmente gosto e amor pelo ofício.
Acreditamos que o ato de pesquisa é o motor que propulsiona a alegria do saber. Todo conhecimento é muito melhor aproveitado quando o receptor é o agente da pesquisa; ser historiador é privilegiar essa característica em todos os momentos da carreira.
As curiosidades pelos fatos, que estão presentes em nossas vidas, nos fazem buscar a sua origem e nesta caminhada nos deparamos com diversos outros acontecimentos que nos propulsionam ao desejo do conhecimento infinito. Neste sentido seria impossível pensar em um agente do estudo histórico, sem pensar em uma pessoa ambiciosa pelo conhecimento e explicação de fatos.
Pensar que o exercício da pesquisa é uma tarefa fácil é titubear na grande quantidade de fontes existentes sem um critério acadêmico de análise ocorrendo, assim, em possíveis erros que podem ser refletidos em irreversíveis prejuízos, uma vez que estamos lhe dando com a criação e/ou sustentação de teorias e análises de fatos vividos.
A interpretação, algo tão particular e aceitável no mundo acadêmico, é uma artifício cuidadosamente utilizado pelo historiador que encara uma afirmação como algo questionável, levando em consideração todos os fatores históricos que a fizeram ser proferida. Assim, a pesquisa se torna um verdadeiro labirinto com diversos outros caminhos onde nem sempre levarão a um mesmo destino.
Assim, o bom historiador deve sempre estar atento aos fatores elencados acima para se respaldar em sua pesquisa tendo a ética e o amor pela verdade como motores propulsores que o ajudarão a atingir, com maior perfeccionismo, seus estudos dando suporte para que se de início a outros Afinal, o desejo pelo saber e o gosto pela pesquisa é o objetivo de todo historiador.

Gabriel Costa
Giovanni Maciel
José Hailton Quaresma

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Reencontrando a história


Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” .Marc Bloch

As questões que guiam nossas reflexões sobre as diferentes definições metodológicas que a historiografia vem conhecendo no seu contínuo processo de renovação crítica, devem desde já conter um fundamento que respeita uma característica marcante dos estudos históricos atuais, a necessidade do historiador de problematizar suas fontes e subtrair das mesmas as diversas possibilidades que são conferidas por tal ato.

Mesmo imbuída de uma capacidade reflexiva apurada a atuação do historiador é exposta cada vez mais a um universo de incertezas que de certa forma vem contribuindo profundamente no processo de renovação metodológica da historiografia.

Mesmo assim, a atuação do historiador em seu ofício carrega uma enorme quantidade de dilemas que não se limitam unicamente à difícil tarefa de problematização documental. Esses dilemas carregam um teor problemático que vigora há tempos na historiografia moderna e que se mostra profundo através da forma como será aplicada a análise metodológica desses documentos. É justamente esse conceito de discussão das matrizes metodológicas que vem sendo exaustivamente estudados por diversos historiadores ao longo do século XX, que conferem um contínuo caráter renovador ao estudo da história. Uma importante renovação dos preceitos norteadores do ofício do historiador se deu em 1929 com o surgimento na França da revista Annales d’Histoire Economique et Sociale, uma nova corrente metodológica possibilitou a historiografia um grande salto qualitativo. Tornou-se efetiva a possibilidade de desvincular a historiografia dos métodos majoritariamente aplicados durante grande parte do século anterior que faziam da disciplina um simples compêndio de informações que teriam a função de narrar os “grandes acontecimentos”, os “grandes fatos”, os feitos dos “grandes heróis” e pautada exclusivamente por uma reflexão das mudanças políticas promovidas por tais ações. Essa corrente, tributária da metodologia de Leopold Von Ranke, dominante no século XIX legou à historiografia que a sucedeu uma forte tradição no entendimento de conceitos generalizantes como a verdadeira função da historia, ou seja, a de explicar os fenômenos históricos através de grandes movimentos e escalas cujo entendimento na construção do conhecimento histórico se daria unicamente através de contínuas mudanças políticas no tecido social possibilitando uma compreensão totalizante das ações dos homens no tempo.

O que Marc Bloch e Lucien Febvre fizeram foi justamente ressaltar o verdadeiro papel do homem na ciência que estudavam, ou seja, o de agente fundamental na sua produção, sendo esse homem um grande político, um renomado intelectual ou um simples camponês, a todos é outorgado o papel de agente de transformação histórica. As diferentes possibilidades de análise documental que ambos buscaram elucidar trouxeram uma maior capacidade reflexiva aos historiadores, e consequentemente as reflexões sobre o papel desenvolvido pela sua ciência. Fundado em preceitos que, se pautaram sempre na interação com as demais ciências humanas em proveito do conhecimento histórico, o movimento dos annales passou a desenvolver e defender modelos metodológicos que não se faziam engessados e estáticos, ao contrário, os annales, ao abarcarem a multiplicidade de doutrinas e posicionamentos que as demais ciências ofereciam souberam refletir essa diversidade no seu contínuo processo de transformação.

Surgiram assim, ao longo do século passado, inúmeras correntes dentro dos annales que buscaram trazer sua contribuição para com a historiografia. O surgimento de uma vertente que buscou elucidar a história em pequenos recortes e movimentos apareceu em contraponto a essa tendência generalizante anteriormente citada. Essa corrente, capitaneada por uma impetuosa voluntariedade em abordar a história sob um olhar microanalítico se posicionou de certa forma como uma nova opção aos estudos embasados nas análises macroanalíticas o que nos leva a uma confrontação dos diferentes modelos.

Ao pesquisador um objeto subsidia inúmeras possibilidades de pesquisa e, quando aplicado um referencial metodológico que o mesmo vê como adequado são encontradas as condições necessárias para a pesquisa histórica. Por esse motivo a discussão sobre o modelo a ser seguido de fato vem sendo motivo para diversas e acaloradas discussões entre pesquisadores de diversas correntes, e a hegemonia de um sobre o outro reflete também a hegemonia de um método de escrita da história.

Não nos esqueçamos que a pesquisa histórica está intimamente ligada ao calçamento subjetivo de quem a realiza e por isso não pode ser desvinculada da ótica metodológica que o historiador transmite a sua obra. O triunfo dessa corrente reflete as necessidades cada vez mais visíveis que nossos tempos acabam impondo aos que se dedicam a entendê-lo, ou seja, a diversidade de discursos e recortes que não mais balizam uma pesquisa que se atenha ao entendimento maior da historia sem antes apontar diversas inconstâncias e possibilidades no discurso da produção da pesquisa histórica. Ao lançarmos vistas a essa nova ótica da pesquisa histórica podemos talvez

Mas também não devemos nos esquecer que o objetivo de se fazer uma narrativa que abarque uma “historia total” ou o “vôo da águia”, é possível a aqueles que se dedicam de forma incessante aos estudos e procuram estruturar sua construção do saber histórico continuamente no pluralismo.

Sendo assim ressaltar a importância de uma pesquisa diversificada, que seja construída de forma reflexiva e plural acaba se mostrando a melhor forma de nos posicionarmos.

Cabe a nós, futuros historiadores, definirmos a forma como enfrentaremos essas diversidades. Mas fica a sugestão de sempre buscarmos lançar olhares para a possibilidade de promoção do diálogo entre as vertentes que se fazem presentes na nossa caminhada rumo aos domínios de Clio.


Gabriel Costa; Giovanni Maciel e José Hailton Quaresma

domingo, 29 de maio de 2011

RECEITA: O BOM HISTORIADOR

O historiador, esse ser que, comumente, pensa-se, está imerso em papéis velhos e livros, a procura de pistas que revelem como os homens construíram suas experiências e configuraram a sociedade.
Como caracterizar o historiador?  Como ele constrói o conhecimento histórico?

São questões existenciais, para as quais deve haver respostas plausíveis!!
São questões que urgem respostas!!


 
Contribua, fornecendo uma "receita".  Não se esqueça: toda receita deve apresentar os ingredientes e detalhar o modo de preparo para obter sucesso.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dilemas do historiador, da visão telescópica ao jogo de escalas

            Ser historiador hoje em dia não é uma tarefa fácil. Antes de qualquer coisa, precisamos vencer a desconfiança natural em relação ao nosso trabalho, principalmente por parte das pessoas que nos cercam. Não são poucos os olhares de desconfiança que recebemos quando ingressamos no curso, bem como as comparações com outras pessoas das mais diversas áreas. Fato é que, fora os dilemas pessoais que um historiador enfrenta atualmente, existem inúmeros dilemas que temos que lidar ao desenvolver nosso trabalho.
            O que vamos estudar? Como vamos lidar com os novos conteúdos? Seriam eles muito diferentes dos quais estávamos acostumados? Essas são só algumas das muitas perguntamos que nos fazemos no começo do curso. Com o desenrolar do mesmo, percebemos que existe muito, muito mais a ser desvendado em nossos estudos, tanto como estudando outros autores, como produzindo nossas próprias obras. Um desses dilemas, que pode vir a se tornar um problema e tanto, diz respeito ao que colocaremos aqui como a visão telescópica e o jogo de escalas.
            Durante muito tempo o que prevaleceu nas pesquisas em história foi a chamada visão telescópica, ou seja, uma visão proveniente de um amplo campo de pesquisa da área. Esta visão ficou tão arraigada em nossos estudos, que durante muito tempo (e inegavelmente ainda hoje) somos apresentados á história por meio de fatos escassos e grandes figuras heróicas que podiam resolver guerras ou construir impérios “magicamente”. Os estudos de história sob a ótica da visão telescópica apresentam justamente esta alcunha de história baseada em grandes figuras e fatos determinantes em determinado contexto e época.
            Essa prática historiográfica só veio a se alterar de forma significativa no final do século XX, com um movimento que ficou conhecido como História Nova. A principal característica da História Nova foi justamente a diversificação de seus objetos de estudo, passando a tratar de temas nunca antes pensados, como história das crianças, da culinária ou das festas (somente citando alguns exemplos). Um dos grandes responsáveis por esta mudança foi a Escola dos Annales, grupo de estudiosos franceses de imensa influência no campo historiográfico, até nos dias de hoje.
            Ora, confrontado com essa mudança tão significativa, o historiador se viu diante de um dilema: continuar com a tradicional visão telescópica, ou então passar a abrir mais a mente para a micro-história. Entende-se por micro-história tudo aquilo que é passível de ser transformado em objeto histórico, mas que não o é por apresentar uma aparente “simplicidade” em sua forma ou conteúdo. A história do cotidiano, da vida comum de uma população ou grupo de pessoas, temas regionalistas de trabalho, tudo isso pode ser considerado como micro-história.
            É justamente com esse jogo de escalas e dilemas que o historiador precisa estar preparado para lidar. Em diversos momentos seremos obrigados a optar por um e isso às vezes pode ser uma escolha de bastante peso em sua vida. Mesmo assim, fazendo esse jogo de escalas, conseguimos trabalhar diversos temas das mais variadas áreas, aumentando assim nossa gama de conhecimentos. Acerca desta oposição entre visão telescópica e micro-história, Tânia Regina de Luca, em seu excelente texto História dos, nos e por meio dos periódicos, afirma:
“Ao longo do trajeto, a visão telescópica, proveniente do amplo campo de observação e das séries quantificáveis que não prescindiam do auxílio do computador – o mesmo Ladurie afirmou, em tom de ironia, “de agora em diante ou o historiador será programador, ou não será historiador” – foi confrontada com o olhar da micro-história, sensível e aos detalhes e objetos modestos, o que colocou em pauta a questão dos complexos “jogos de escalas” manipulados pelos historiadores.” [pag. 114]
            Como se pode perceber analisando este trecho, o historiador é confrontado com uma série de dilemas relacionados ao já mencionado jogo de escalas. À medida que nossos conhecimentos na área aumentam, bem como nossa experiência na prática de historiador, seremos capazes de melhorar nossa postura em relação a este conflito. A história já foi restringida pela visão telescópica durante tempo demais. É necessário existir um equilíbrio entre ela e a micro-história para que possa ocorrer uma real produção de conhecimento acerca de determinado recorte histórico. Tudo se trata um balanço entre os dois, balanço este que pode ajudar, e muito, um historiador em suas diversas pesquisas na vida acadêmica.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Bibliografia Complementar:
LUCA, Tânia Regina. A história dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas.São Paulo: Contexto, 2005.

Paleografia, o estudo da escrita antiga

Qual pesquisador seja ele estudante (nos projetos de Iniciação Científica ou pesquisas do gênero) ou mesmo historiadores, que nunca se sentiu em “apuros” ao se deparar com aquele desejado documento antigo, aquele elemento fundamental para sua pesquisa, que devido à caligrafia e à ortografia corrente em uma determinada época, torna-se um “bicho de sete cabeças”? De uma possível contribuição ao seu trabalho, o documento torna-se um “problema”.
Os cursos de História de uma maneira geral, ainda não se deram conta da importância do ensino ou mesmo de noções de uma ciência: a Paleografia. Etimologicamente falando, paleografia é um termo cuja origem advêm da Grécia, sendo que “paleo” significa antiga e “grafia” escrita, ou seja, “o estudo da escrita antiga”, podendo esta ser considerada uma ciência aliada da História.
Assim, as técnicas da paleografia permitem a leitura e conseqüentemente a transcrição e interpretação dos documentos antigos, dentre os quais, os manuscritos. A paleografia também é um grande aliado da lingüística, pois permite uma excelente análise das transformações sofridas pela língua de um povo em diferentes períodos cronológicos.
Porém, é na Arquivística, ou melhor, nos profissionais que se dedicam à tal função, é que a paleografia mostra-se de grande importância, pois é a partir da leitura de documentos e posterior classificação, que os pesquisadores (lingüistas, historiadores e outros) podem recorrer aos arquivos existentes, procurando realizar suas pesquisas. Não é atoa que entre as disciplinas do curso de Arquivologia (ainda pouco numerosos no Brasil, diga-se de passagem) está a paleografia.
A abundância de documentos existentes no país, conservados e acondicionados nos mais diversos ambientes, do período colonial ao republicano, exige muitas vezes o conhecimento da paleografia para sua leitura, transcrição e posterior interpretação. Soma-se a isso, atualmente, a disponibilização de documentos digitalizados na internet.
Sim, caro internauta! Atualmente alguns Arquivos disponibilizam documentos de seu acervo, cujo acesso está ao alcance de todos, bastando para isso estar conectado a um computador com internet. Isto democratiza e facilita o acesso ao documento a qualquer pesquisador, sem que ele saia de sua casa. No Brasil, temos o site do “Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília” (CMD/UNB), cujo acervo do Arquivo Ultramarino de Portugal está disponível para consulta.
Muitos pesquisadores afirmam que a leitura destes documentos antigos fica mais fácil com o passar do tempo, com o contato permanente do pesquisador com estas fontes. Porém, não podemos negligenciar a inestimável importância das noções de paleografia para o bom desenvolvimento do trabalho dos historiadores.
Os paleógrafos, peritos nesta ciência, conseguem mediante a análise de um documento, verificar sua autenticidade, determinar a interferência de outros agentes no processo da escrita, além de serem conhecedores das normas de transcrição. Ou seja, é um profissional da mais alta importância para Arquivos bem como para os pesquisadores.
Encerrando esta nossa participação, aproveitamos para comunicar aos interessados que ocorrerá em Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, o “I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática” que será realizado entre os dias 18 e 20 de Maio de 2011. As inscrições já estão abertas.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Links úteis:
I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática


Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília (CMD/UNB)