segunda-feira, 4 de julho de 2011

Visão X: a (des)construção do olhar.


“Segundo Ruskin, crítico de arte inglês: “as grandes nações escrevem sua autobiografia em três volumes: o livro e suas ações, o livro de suas palavras e o livro e a sua arte”. E acrescenta: “nenhum desses três livros pode ser compreendido sem que se tenha lido os outros dois, mas desses três, o único que se pode confiar é o último””.

(PROENÇA, G. – História da Arte)

A arte não está desconexa da vida cotidiana. Ela se faz presente nas mais diversas dimensões – entre elas, o artefato, construção, etc. Assim, dominar as discussões da arte como fonte deve-se, primordialmente ter em mente que esta, ao ser um documento, está carregada de subjetividades e intencionalidades. Junta-se a isso o fato de que a produção é caracterizada sobre diversos fatores. Roger Chartier ilustra em “Do palco à página” – na questão dos teatros, pela qual ao delinear a pluralidade da abordagem teatral –, que:

“(...) Tanto a produção do texto quanto a construção de seus significados dependem de momentos diferentes de sua transmissão: a redação ou o texto ditado pelo autor, a transcrição em cópias manuscritas, as decisões editoriais, a composição tipográfica, a correção, a impressão, a representação teatral, as leituras. É neste sentido que se podem entender as obras como produções coletivas e como resultado de “negociações” com o mundo social. Estas “negociações” não são somente a apropriação de linguagens, de práticas ou rituais. Elas remetem, em primeiro lugar, às transações, sempre instáveis e renovadas entre a obra e a pluralidade de seus estados”.

Desta maneira, como ilustra COLI (1990):

“Para o decidir o que é ou não arte, nossa cultura possui instrumentos específicos. Um deles, essencial, é o discurso sobre o objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade. Esse discurso é o que proferem o crítico, o historiador da arte, o perito e o conservador de museu. São eles que conferem o estatuto de arte ao objeto. Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa galeria, sei de antemão que encontrarei obras de arte; filmes que escapam a “banalidade” dos circuitos normais; numa sala de concerto, música “erudita”,etc. Esses locais garantem-me assim o rótulo de “arte” às coisas que apresentam, enobrecendo-as”. (p.11)

Desta forma, mesmo que não se saiba o que é arte, o coletivo construiu modos de interpretação para esta. Junta-se a isso, as diversas ângulos sobre arte envolvidos (representação; construção histórica do autor e da obra; legitimação ou não perante à certas ideologias; etc). Desta forma, cabe ao historiador conhecer os elementos para que, em sua análise iconográfica, conheça os símbolos – para não cometer erros descritivos; o que Peter Burke fala sobre “o grupo a que foi produzido e para que propósitos fora destinada”.

Assim, uma obra pode adquirir vieses diversos. Arthur Valle, intitulado “Releitura e Análise de Obras de Arte” elucida um exemplo sobre as interpretações gráficas de Arnheim – que utilizava esquemas análise fazendo um verdadeiro curto-circuito entre a conotação simbólica da obra e a sua dinâmica visual. Na obra de Michelangelo Buonarroti “A criação de Adão” [ver o artigo, caso o interesse for grande] seu esquema – que embora seja redutivo, é bem virtuoso quando se compara obras – permitiu ao historiador “[deixar] a princípio de lado os fatores históricos, funcionais e técnicos, (...) [para] centrar suas considerações em critérios eminentemente formais, para enfatizar os paralelismos encontrados entre a arte sumeriana antiga e a arte europeia dos séculos XI e XII”. (p.06)

Já Anna Maria de Lira Pontes, na produção intitulada “A obra de arte como fonte histórica: Frans Post e a sua relação com o Novo Mundo”, exemplifica a questão da complexidade de análise de Frans Post – já que este, com o passar do tempo em suas obras, modificou o viés para atender o seu nicho de mercado holandês. Portanto, em um viés deste sujeito nesta produção, colocou-se sob de maneira a “contemplar os vários aspectos da pintura de paisagem – destrinchando-a, de modo que o máximo de informações possíveis seja retirado do assunto [cor, textura, etc]” (p.06). Assim revelou-se sua intencionalidade e não desconsiderou-se a importância dessas obras no “Novo Mundo do século XVII”.

Qual é então é o valor da arte para os homens? Arthur Valle escreve um artigo belíssimo, intitulado “Releitura e Análise de Obras de Arte” em que, numa citação de Itten, evidencia:

“Nós podemos quotidianamente observar nos museus que “aqueles que saboreiam a arte” deslizam de quadro em quadro sem deles participar interiormente. Onde está o erro? Nós não compreendemos as formas e as cores com todo nosso ser. Nós vemos de maneira demasiadamente superficial e captamos da arte apenas a sua forma anedótica, nós só raramente vivemos as tensões e as relações que marcam a obra com o seu selo e transformam-na em uma obra de arte. O que podemos fazer? Toda pessoa interessada em arte deveria ela mesma desenhar e pintar. Todo indivíduo interessado pode fazê-lo. [...] Basta que o professor dê algumas diretrizes, exercícios bem precisos para que os “menos dotados”, os chamemos assim, se ponham a desenhar com uma mão segura”. (Itten, 1990, p.121).

Quando se tem uma proposta adequada do ensino de artes, o aluno será capaz de – no mínimo – compreender, sentir, pensar, comunicar e interagir com as diversas situações e formas históricas. Terá a possibilidade de perceber que esta adquire titulo de fonte e que deve ser inserida com a percepção que elucidamos no início – que deve ser contextualizada e perceptível nos seus mais diversos símbolos. Obterá mais chances de correlação com as outras temáticas no aprendizado e viabilizará correlações as mais incríveis possíveis. O ensino em si, bem estruturado, permite a avaliação real dos diversos objetos e construções artísticas viabilizadas até então – partindo para compreensões mais complexas posteriormente.


Bibliografia:

Discente: Marcela Cristina de Faria.

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