sábado, 2 de julho de 2011

A possibilidade de utilizar cardápios e listas de alimentos como fontes históricas.



Entende-se que, contemporaneamente, a análise histórica vem se tornando cada vez mais abrangente com relação aos seus objetos e fontes consideradas documentos históricos. A isto, procedeu-se uma grande alteração da utilização e na conceituação de documentos históricos.

Nos dizeres de Karnal e Tatsch:

[...] o século XX estimulou a ampliação de objetos históricos e cumpriu o desejo de Bloch às vésperas de sua execução, que anelava dar o estatuto de “documento histórico” a tudo que contivesse a possibilidade de vislumbrar a ação humana.” (2009, p.15)

O diálogo para com campos outros se amplia em sendo comparado ao anteriormente utilizado pela chamada Historia tradicional. E, ampliando os temas possíveis de serem abordados, consequentemente, aumentou-se a noção acerca de documentos. Seguindo tal raciocínio, pode-se argumentar que a utilização de documentos antigamente rejeitados pelos historiadores em seu ofício, agora podem ser de grande valia. Basta saber interpretá-los.

Ora, sabendo-se que “registros escritos e documentos relacionam-se com todas as atividades humanas” (SALIBA, p. 312), cardápios e listas de pedidos, documentos de portos e estações de desembarque/embarque de alimentos em muito auxiliaria na compreensão de determinadas sociedades.

Do período Antigo, em que cereais e grãos eram comumente transportados de aldeias a aldeias, ou mesmo no Brasil, em que tanto houve trocas de alimentos entre indígenas e europeus, tais documentos representam toda uma interação existente entre sociedades, seja simples trocas comerciais, seja uma relação de dominação. Relação esta exemplificada pelos impostos obrigados ao Egito de Cleópatra, representados por alimentos que deveriam ser exportados a Roma. Listas de tais produtos muito contribuem para discernir a dieta de cada sociedade, percebendo a influência também dos fatores naturais (climas e solos).

Outro aspecto relevante e que pode ser abordado seria estabelecer períodos em que tais alimentos se tornaram escassos, corroborando para crises que bem poderiam gerar revoltas em meio a uma sociedade pobre e incapaz de se sustentar. Percebendo-se as mudanças nas dietas, poder-se-ia chegar a causas de revoltas e rupturas políticas, deposições de reis e governantes, etc.

[...] as colônias do norte produziam, em virtude do clima e pelas características dos solos, exatamente o mesmo que a agricultura britânica, ou seja, não ofereciam à metrópole, como adverte Bagú, uma produção complementar. (GALEANO, 1992, p. 146)

Eduardo Galeano bem exemplifica neste pequeno trecho que as colônias norte-americanas não eram necessárias para a subsistência de sua metrópole, o que poderia ser um dos fatores que acarretariam na independência norte-americana.

Além do mais, pode-se conferir no interior de cada sociedade, distinções entre as classes ricas e pobres, por intermédio de cardápios. O variado preço dos alimentos, sugerindo que alguns fossem pratos considerados, culturalmente, mais requintados, oferecidos apenas por certos estabelecimentos destinados à alta sociedade. Enquanto isto, outros alimentos, por serem mais baratos e vendidos em lugares menos refinados, seriam considerados alimentos populares. Alimentos estes que fariam a separação do “joio e do trigo”, do rico e do pobre, de restaurantes “nobres” dos comuns.

Vê-se, portanto, que tais fontes históricas podem empreender grande auxílio a historiadores em sua seara de compreender fatores e contextos humanos. O que não se pode, no entanto, é “forçar a barra”, na tentativa de considerar tudo e qualquer produto humano como objeto a ser utilizado e passível de compreender a totalidade das relações sociais, políticas, econômicas, dentre outras, por parte do historiador, apenas para encaixá-lo no objetivo proposto por este. Está aí uma maneira de banalizaria seu próprio ofício perante a História e seus elementos.

Referências

GALEANO, Eduardo. As Treze Colônias do Norte e a importância de não nascer importante. In: As Veias abertas da América Latina. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro – RJ, 1992).

KARNAL, Leandro. TATSCH, Flavia Galli. A memória evanescente. In: O Historiador e suas fontes/ Carla Bassanezi Pinsky e Tania Regina de Luca (orgs.). – São Paulo : Contexto, 2009.

SALIBA, Elias Thomé. Aventuras modernas e desventuras pós-modernas. In: O Historiador e suas fontes/ Carla Bassanezi Pinsky e Tania Regina de Luca (orgs.). – São Paulo : Contexto, 2009.


Discente: Lucas Nangi

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