domingo, 29 de maio de 2011

RECEITA: O BOM HISTORIADOR

O historiador, esse ser que, comumente, pensa-se, está imerso em papéis velhos e livros, a procura de pistas que revelem como os homens construíram suas experiências e configuraram a sociedade.
Como caracterizar o historiador?  Como ele constrói o conhecimento histórico?

São questões existenciais, para as quais deve haver respostas plausíveis!!
São questões que urgem respostas!!


 
Contribua, fornecendo uma "receita".  Não se esqueça: toda receita deve apresentar os ingredientes e detalhar o modo de preparo para obter sucesso.


domingo, 8 de maio de 2011

Tema: “Dilemas do historiador: da visão macroscopica ao jogo de escalas".


Legenda: Rirkrit Tiravanija and Neil Logan defaced an atomic bomb cloud

“Manchete: “Assassinato, jovem garota morta.
Tiroteio desesperado em Echo’s Hill.
Final terrível, assassino morreu.
Suicídio evidentemente”.
(...) Teria acontecido uma luta violenta?
Havia todos os indícios que levavam a isso.
A testemunha achou um canivete no chão.
Estava a vítima despreparada?
Eles continuaram a investigar.
Eles encontraram um bilhete no bolso do assassino.
Poderia ser uma carta de suicídio?
Talvez ele tivesse perdido o amor dela.
(...) Nossos feitos têm viajado para longe.
O que nós temos sido é o que nós somos”.
(Beyond this life - Dream Theater)

Para tratar da temática “Dilemas do Historiador: da visão microscópica ao jogo de escalas”, decidimos usar dois meios de correlação: a imagem acima - retirada do site de blogs famoso, o tumblr - e o excerto da música “Beyond this life”, da banda que há mais de vinte anos trilha o caminho do instrumental rock: Dream Theater.
De início, pode-se pensar como coisas difíceis de relacionar. Mas ao pensarmos as estruturas vistas no texto intitulado “História dos, nos e por meio dos periódicos” de Tânia Regina de Luca, as coisas começam a fazer sentido. Achando que a melhor forma de estruturação para delinear a temática é dar os parâmetros que achamos necessários no texto à construção dos objetos - imagem e excerto - pretendemos discorrer aqui de forma simples a construção permeada por nós na disciplina “Educação e Desenvolvimento de Projetos - 5”.
Neste presente texto - “História dos, nos e por meio dos periódicos” de Tânia Regina de Luca -, podemos dizer que a luz do conteúdo presente em jornais e revistas como fonte/por meio da imprensa para o “conhecimento” - e aí, saber e interpretar o que é “conhecimento”, já que é uma coisa relativa aos sujeitos - foi por vezes uma preocupação de pronto da construção qualitativa dos historiadores. Os jornais, considerados como “enciclopédias do cotidiano” revelam um fluxo de “registros do presente” que, ao passo de se atender a diversas representações deste - e aí, lembrando de Chartier e seus estudos -, são submersos aos mais diversos interesses - e, neste caso, aos mais subjetivos meios para captar o ocorrido. O historiador, ao enxergar as estruturas do ocorrido e proceder de forma diferente no “captar”, - com seus procedimentos metodológicos adquiridos nas disciplinas -, reavalia a produção do saber histórico e utiliza-se das várias problemáticas que podem abarcar os mais diversos objetos - ampliando a gama de estruturas.
Os aportes analíticos interdisciplinares ao passo que oferecem diversas formas metodológicas, forçam o historiador a reavaliar as fronteiras de sua própria disciplina e mostram portanto um novo meio de se fazer História além dos limites do simples “escrito”, presentes nas ordens estruturais de uma historiografia já engessada. O passar de um “paradigma em que a análise macroeconômica era primordial para uma História que focaliza os sistemas culturais” que a autora cita, evidencia uma nova estruturação e relação entre os diversos objetos - agora possíveis - abarcados pelo historiador em seu ofício. O perceber a experiência de grupos e camadas sociais por simples “folhetos que revelam a estrutura cotidiana” é, de fato, um novo modelo de se interpretar as formas de escrita e revelação de uma sociedade numa época instaurada. Como assinalou Antoine Prost: “alterou-se o modo de inquirir os textos, que “interessará menos pelo que eles dizem do que pela maneira como dizem, pelos termos que utilizam, pelos campos semânticos que traçam””; e aí, na contribuição da autora, a complementação disto no “pelas zonas de silêncio que estabelecem”.
A História e o esforço por uma abordagem que utiliza-se das mais diversas fontes determinam o que “preconizar” - com base no panorama teórico-metodológico - e define o que contribuir de seu ofício. Assim, ao se avaliar a documentação periódica - jornais e revistas -, tomando-a como “fonte histórica”, há de se levar em conta que o conteúdo que mistura o “imparcial e o tendencioso” testam o panorama teórico-metodológico adquirido pelo historiador que abarca esta área. Desta maneira, ao utilizar-se e delimitar a temática pela qual irá tratar e a forma do como leva essa construção determinam a qualidade do historiador e da produção à que este legará a sua comunidade de ofício. A “verossimilhança” neste quesito nos lega que a História que está sendo construída é passível de desconstrução - ao passo que cada objeto estudado ou achado pode definir um novo rumo na História. Assim, sabendo que seu ofício não é fechado e é readequado às diversas interpretações, o historiador não é um sujeito solitário, e sim que trabalha em conjunção aos demais historiadores que lhe irão atribuir sentidos dos mais diversos possíveis.
Porque então utilizar-se de uma música e de uma imagem para pensar estes dois textos? Pois a sistematização e o proceder histórico adquirido pelo historiador em seu ofício que determinam uma diferenciação no escrever na dimensão/interpretação abarcado. Desta maneira, a imagem nos traz - aqui, descrevendo-a - a incompletude de um fato devido as “peças” que faltam no quebra-cabeça. Aqui, podemos equiparar ao nosso ofício: o fato está lá, mas as interpretações e o modo como encaixamos a peça definem o nosso proceder e nossa contribuição na consolidação do fato. Ao passo que esse quebra cabeça é uma explosão de algo - a que não sabemos, mas cabe desvendar -, temos que levar em conta também que a explosão define algo - para alguém - que “não o quer lembrar” - ou seja: aos sujeitos que a sofreram; aos fatos vividos por alguém. O respeitar o fato histórico sem ferir o nosso ofício - que pretende mostrar interpretações diversas dele - compreende o “até onde ir” e pensar no “Quem escreve? Para quem escreve? O que? Quando? Onde?” de Vavy Pacheco. É uma tarefa mais difícil, mas que deve ser tratada. Interpretar e escrever delimitam a tarefa incansável e difícil que é ser “homem” - enquanto ser: enquanto aquele que sofre, tem angústias e que luta - e “homem num ofício” - ser “aquele que deve oferecer uma contribuição sólida para os seus e para o esvair da vida cotidiana”.
Já o excerto, mostra o nosso legado. A manchete está lá, resumida em quatro estrofes. As pessoas estão lá, mostrando a dimensão dos momentos. E nós, muitas vezes, estamos a escrever sobre um presente momento - que pode ser o mesmo ou outro -, e que interfere no que somos e no que fomos anteriormente. E assim: “(...) Nossos feitos têm viajado para longe. O que nós temos sido é o que nós somos”.
Vemos. Pensamos. Somos seres. Escrevemos. Estamos sujeitos a várias situações e desejos. E somos historiadores. Escrevemos História, fazemos história e somos envolvidos por várias outras delas. Este é portanto, o caráter de nosso ofício: Considerar as dimensões do homem e saber que também somos um.
Discentes: Kamilla Cristine; Karine Batista e Marcela Cristina de Faria.
Bibliografia
LUCA, T.R. de. História dos, nos e por meio dos periódicos. IN: Fontes históricas.
[s.d]. Disponível em: <http://www.pablogt.com/artists/rirkrit-tiravanija-and-neil-logan/>. Acesso em 8 mai. 2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dilemas do historiador, da visão telescópica ao jogo de escalas

            Ser historiador hoje em dia não é uma tarefa fácil. Antes de qualquer coisa, precisamos vencer a desconfiança natural em relação ao nosso trabalho, principalmente por parte das pessoas que nos cercam. Não são poucos os olhares de desconfiança que recebemos quando ingressamos no curso, bem como as comparações com outras pessoas das mais diversas áreas. Fato é que, fora os dilemas pessoais que um historiador enfrenta atualmente, existem inúmeros dilemas que temos que lidar ao desenvolver nosso trabalho.
            O que vamos estudar? Como vamos lidar com os novos conteúdos? Seriam eles muito diferentes dos quais estávamos acostumados? Essas são só algumas das muitas perguntamos que nos fazemos no começo do curso. Com o desenrolar do mesmo, percebemos que existe muito, muito mais a ser desvendado em nossos estudos, tanto como estudando outros autores, como produzindo nossas próprias obras. Um desses dilemas, que pode vir a se tornar um problema e tanto, diz respeito ao que colocaremos aqui como a visão telescópica e o jogo de escalas.
            Durante muito tempo o que prevaleceu nas pesquisas em história foi a chamada visão telescópica, ou seja, uma visão proveniente de um amplo campo de pesquisa da área. Esta visão ficou tão arraigada em nossos estudos, que durante muito tempo (e inegavelmente ainda hoje) somos apresentados á história por meio de fatos escassos e grandes figuras heróicas que podiam resolver guerras ou construir impérios “magicamente”. Os estudos de história sob a ótica da visão telescópica apresentam justamente esta alcunha de história baseada em grandes figuras e fatos determinantes em determinado contexto e época.
            Essa prática historiográfica só veio a se alterar de forma significativa no final do século XX, com um movimento que ficou conhecido como História Nova. A principal característica da História Nova foi justamente a diversificação de seus objetos de estudo, passando a tratar de temas nunca antes pensados, como história das crianças, da culinária ou das festas (somente citando alguns exemplos). Um dos grandes responsáveis por esta mudança foi a Escola dos Annales, grupo de estudiosos franceses de imensa influência no campo historiográfico, até nos dias de hoje.
            Ora, confrontado com essa mudança tão significativa, o historiador se viu diante de um dilema: continuar com a tradicional visão telescópica, ou então passar a abrir mais a mente para a micro-história. Entende-se por micro-história tudo aquilo que é passível de ser transformado em objeto histórico, mas que não o é por apresentar uma aparente “simplicidade” em sua forma ou conteúdo. A história do cotidiano, da vida comum de uma população ou grupo de pessoas, temas regionalistas de trabalho, tudo isso pode ser considerado como micro-história.
            É justamente com esse jogo de escalas e dilemas que o historiador precisa estar preparado para lidar. Em diversos momentos seremos obrigados a optar por um e isso às vezes pode ser uma escolha de bastante peso em sua vida. Mesmo assim, fazendo esse jogo de escalas, conseguimos trabalhar diversos temas das mais variadas áreas, aumentando assim nossa gama de conhecimentos. Acerca desta oposição entre visão telescópica e micro-história, Tânia Regina de Luca, em seu excelente texto História dos, nos e por meio dos periódicos, afirma:
“Ao longo do trajeto, a visão telescópica, proveniente do amplo campo de observação e das séries quantificáveis que não prescindiam do auxílio do computador – o mesmo Ladurie afirmou, em tom de ironia, “de agora em diante ou o historiador será programador, ou não será historiador” – foi confrontada com o olhar da micro-história, sensível e aos detalhes e objetos modestos, o que colocou em pauta a questão dos complexos “jogos de escalas” manipulados pelos historiadores.” [pag. 114]
            Como se pode perceber analisando este trecho, o historiador é confrontado com uma série de dilemas relacionados ao já mencionado jogo de escalas. À medida que nossos conhecimentos na área aumentam, bem como nossa experiência na prática de historiador, seremos capazes de melhorar nossa postura em relação a este conflito. A história já foi restringida pela visão telescópica durante tempo demais. É necessário existir um equilíbrio entre ela e a micro-história para que possa ocorrer uma real produção de conhecimento acerca de determinado recorte histórico. Tudo se trata um balanço entre os dois, balanço este que pode ajudar, e muito, um historiador em suas diversas pesquisas na vida acadêmica.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Bibliografia Complementar:
LUCA, Tânia Regina. A história dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas.São Paulo: Contexto, 2005.

Paleografia, o estudo da escrita antiga

Qual pesquisador seja ele estudante (nos projetos de Iniciação Científica ou pesquisas do gênero) ou mesmo historiadores, que nunca se sentiu em “apuros” ao se deparar com aquele desejado documento antigo, aquele elemento fundamental para sua pesquisa, que devido à caligrafia e à ortografia corrente em uma determinada época, torna-se um “bicho de sete cabeças”? De uma possível contribuição ao seu trabalho, o documento torna-se um “problema”.
Os cursos de História de uma maneira geral, ainda não se deram conta da importância do ensino ou mesmo de noções de uma ciência: a Paleografia. Etimologicamente falando, paleografia é um termo cuja origem advêm da Grécia, sendo que “paleo” significa antiga e “grafia” escrita, ou seja, “o estudo da escrita antiga”, podendo esta ser considerada uma ciência aliada da História.
Assim, as técnicas da paleografia permitem a leitura e conseqüentemente a transcrição e interpretação dos documentos antigos, dentre os quais, os manuscritos. A paleografia também é um grande aliado da lingüística, pois permite uma excelente análise das transformações sofridas pela língua de um povo em diferentes períodos cronológicos.
Porém, é na Arquivística, ou melhor, nos profissionais que se dedicam à tal função, é que a paleografia mostra-se de grande importância, pois é a partir da leitura de documentos e posterior classificação, que os pesquisadores (lingüistas, historiadores e outros) podem recorrer aos arquivos existentes, procurando realizar suas pesquisas. Não é atoa que entre as disciplinas do curso de Arquivologia (ainda pouco numerosos no Brasil, diga-se de passagem) está a paleografia.
A abundância de documentos existentes no país, conservados e acondicionados nos mais diversos ambientes, do período colonial ao republicano, exige muitas vezes o conhecimento da paleografia para sua leitura, transcrição e posterior interpretação. Soma-se a isso, atualmente, a disponibilização de documentos digitalizados na internet.
Sim, caro internauta! Atualmente alguns Arquivos disponibilizam documentos de seu acervo, cujo acesso está ao alcance de todos, bastando para isso estar conectado a um computador com internet. Isto democratiza e facilita o acesso ao documento a qualquer pesquisador, sem que ele saia de sua casa. No Brasil, temos o site do “Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília” (CMD/UNB), cujo acervo do Arquivo Ultramarino de Portugal está disponível para consulta.
Muitos pesquisadores afirmam que a leitura destes documentos antigos fica mais fácil com o passar do tempo, com o contato permanente do pesquisador com estas fontes. Porém, não podemos negligenciar a inestimável importância das noções de paleografia para o bom desenvolvimento do trabalho dos historiadores.
Os paleógrafos, peritos nesta ciência, conseguem mediante a análise de um documento, verificar sua autenticidade, determinar a interferência de outros agentes no processo da escrita, além de serem conhecedores das normas de transcrição. Ou seja, é um profissional da mais alta importância para Arquivos bem como para os pesquisadores.
Encerrando esta nossa participação, aproveitamos para comunicar aos interessados que ocorrerá em Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, o “I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática” que será realizado entre os dias 18 e 20 de Maio de 2011. As inscrições já estão abertas.

Autores: Brunno Silva Martins
                Matheus Kaneko da Silva
                Robert Mori
                Lucas Silva Nangi dos Santos

Links úteis:
I Congresso Brasileiro de Paleografia e Diplomática


Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília (CMD/UNB)